King John lança o primeiro single gravado em estúdio

King John lança o primeiro single gravado em estúdio

 

Miguel Bettencourt Mota   Cultura e Social   15 de Fev de 2018, 07:30

Doppelgänger foi lançado esta quinta-feira e pode ouvi-lo aqui enquanto lê a entrevista do seu autor. Depois de ter apresentado ao público o EP 'Blues Better Than Therapy', há pouco mais de um ano, King John faz-nos chegar as sequelas de uma "batalha interior" a que Lisboa assistiu de bancada. Doppelgänger é um monarca feito dois e é António Alves - o rei dos reis - a mandar rock e blues para a linha da frente.  


Um doppelgänger pode ser entendido como uma cópia de nós mesmos, como um duplo-eu. É assim na sua música? Porque escolheu o termo para dar nome ao single?

Eu ouvi esse termo, pela primeira vez, num filme ou numa série, quando já cá estava em Lisboa. Esse tema tem exatamente por base a minha experiência aqui e a viagem interior a que Lisboa me tem convidado. Porque, na verdade, eu mudei-me para cá um pouco ‘fora de horas’... Fiz o percurso inverso a muitos jovens que vêm para cá cedo estudar, ou tentar a sua sorte profissional. A música é reflexo disso e da batalha interior com que me confrontei no meu percurso aqui...

...De que batalha falamos? Que universos são esses em confronto?

Eu posso dar um exemplo prático: sou uma pessoa um pouco introvertida, mas tenho de conviver com alguma exposição. Além disso, Lisboa também tem um ruído e um movimento muito próprios...Há barulho e, por vezes, falta-me algum silêncio. O single fala de toda essa batalha entre ter de estar aqui – e querer estar aqui, em Lisboa -, mas também ter de lidar com uma experiência que nem sempre é prazerosa.

Há pouco mais de um ano apresentou o EP ‘Blues Better Than Therapy’. O que mudou em si nesse espaço de tempo que nos possa permitir esperar algo de diferente neste trabalho?

‘Blues Better Than Therapy’ teve uma construção muito baseada nos elementos com que eu tocava ao vivo: sobretudo, guitarra e bateria. Mas sempre apontei no sentido de, no futuro, contar também com piano e baixo. Este single foi diferente porque construi-o já a pensar que ia ter esses elementos todos. Mas a grande diferença – que me deixa muito feliz, mas também apreensivo – foi que, desta vez, gravei em estúdio. O EP foi gravado em casa...

...Apesar da crítica positiva que mereceu, o EP não ‘rodou’ com frequência nas grandes rádios nacionais. Terá esse facto tido relação com os moldes em que decidiu gravá-lo?

Sim, na realidade, acho que essa foi uma das principais razões. Já houve muitas pessoas da rádio que me disseram que a minha música tinha qualidade, mas que faltava qualidade ao nível da gravação. Infelizmente, há alguns diretores de programação nas rádios que ainda têm alguma dificuldade em olhar objetivamente para os conteúdos da música e não apenas para o seu suporte. Ao mesmo tempo, o meu som não é o mais ‘comercial’ e, hoje em dia, não há assim muito espaço para o estilo de música que eu toco.

Pode-se assumir que este single está menos ‘cru’ do que as outras cinco faixas que constavam do ‘Blues Better Than Therapy’?

Pode-se. Eu não fugi, no entanto, à minha essência e gravei todos os ‘takes’, praticamente, à primeira (...) Eu acho que vai haver um choque nas pessoas que estão habituadas a ouvir a minha música porque ela está bem gravada, mas não necessariamente pelo meu esforço em tentar aperfeiçoá-la. Eu encaro o momento de gravação das músicas da mesma forma com que vivo o momento em que as estou a construir. Se não, o que acontece é que perdemos aquela impressão digital dos primeiros takes e fugimos da ideia inicial.

Espera que a situação se inverta e que consiga ter outra expressão nos canais de divulgação?

Claro, o objetivo de Doppelgänger foi exatamente esse. Eu sinto que a música, em si, também é um bocado mais transversal. Continua a estar no estilo em que eu toco (rock & roll, com uma pequena influência de Blues), mas com uma toada mais transversal. Vou também lançar um videoclip da música, algo que nunca tinha feito antes porque achei que não era a altura apropriada...

...Há uma outra maturidade agora?

Sim. Eu nunca lancei nenhum videoclip e todas as músicas que apresentei foram gravadas em casa...Sempre fui pouco profissional, nesse sentido. Mas eu também faço isso há muito pouco tempo...Apenas há cerca de três anos. Como tenho 29 anos as pessoas tendem a pensar que eu estou a fazer isso há muito tempo, mas não! Tive de crescer e aprender de forma rápida. Agora, pareceu-me a altura certa para dar esse passo, tentar ir buscar outros ouvintes e dar outra projeção à minha música.

O lançamento deste tema poderá ser mais um passo dado no sentido de um projeto mais ambicioso, como gravar um álbum?

Exatamente. Eu acho, contudo, que apresentar um CD significa que se passou a um patamar diferente enquanto artista. Eu não encaro fazer um CD de ânimo leve. Se calhar, já o poderia ter feito, mas prefiro fazê-lo com outra estabilidade enquanto artista (...) Lançar este ‘single’ significa tentar perceber se estou na direção certa e se a minha música consegue quebrar barreiras e captar o interesse de outras pessoas. É essa também a importância que a música tem para mim.

Neste momento não vive apenas da música, é algo a que aspire?

Sim, porque acho que quando queremos fazer bem uma coisa, temos de nos dedicar a ela a cem por cento...Temos que tentar que as nossas energias estejam todas concentradas num objetivo...

...Viver em Lisboa tornou essa ambição mais complicada?

Bem, eu era relativamente conhecido nos Açores e beneficiava de toda uma ajuda familiar. Mas quando passei para Lisboa tornei-me num completo desconhecido, outra vez. Tive de começar tudo do zero e num sítio onde é muito mais difícil vingar porque existe mais gente e qualidade...Mas poder dizer que sou músico e que ganho dinheiro da minha música, claro que é o objetivo. Será automaticamente sinal de que o que faço está ser valorizado e reconhecido.

Custa perseguir esse sonho longe de casa?

Custa sempre um pouco. Eu como açoriano sou o primeiro a admitir que nós temos muita sorte pelo sitio onde nascemos, mas também reconheço que - passada aquela fase inicial da nostalgia - preciso de estar aqui...Mais perto das oportunidades e dos locais onde as decisões se tomam.

Continua a escrever em inglês. Porquê?

Praticamente todas as minhas influências musicais são inglesas ou norte-americanas e o que faço acaba por as espelhar. Foi-me muito mais natural começar a escrever em inglês quando comecei a compor...

Não foi, portanto, por temer um resultado ridículo depois de escrever em português?

Não, não. Eu julgo até que cantar em inglês permite passar a minha mensagem a mais pessoas. Isso não significa que o objetivo seja comercial, não é essa a questão! Não escrevo as minhas letras à toa e procuro que elas tenham sempre uma mensagem por detrás e transmiti-la (...) Há muitas pessoas que falam português no mundo, é verdade...Mas continuo a achar que a língua do rock & roll é a inglesa [risos].




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