Jovens "presos" em centros de reinserção saem a querer acreditar no futuro


 

Ao/Lusa   Nacional   13 de Jul de 2014, 10:50

Entre furtos, assaltos e violações, o passado dos jovens "presos" em centros de reinserção social esteve longe de ser risonho.

 

Ali, condenados a internamento, aprendem a viver em comunidade, recebem formação e saem com trabalho, a acreditarem que o futuro vai trazer mais motivos para os fazer sorrir.

No Centro Educativo Navarro de Paiva (CENP), em São Domingos de Benfica, Lisboa, uma das sete instituições do país com este fim, estão internados 43 jovens, condenados pelo Tribunal de Família e Menores à medida mais gravosa da Lei Tutelar Educativa para jovens que cometeram atos ilícitos entre os 12 e os 16 anos.

A maioria dos jovens é oriunda de "bairros sociais, famílias desestruturadas ou com problemas económicos, em que a falta de estabilidade e de afeto” os conduziu à “má vida”, como caracteriza, em declarações à agência Lusa, Licínio Lima, subdiretor da Direção-Geral da Reinserção e Serviços Prisionais.

Segundo Licínio Lima, está a aumentar o número de jovens que têm mais problemas afetivos do que problemas económicos, “têm uma relação afetiva maior com o computador do que com o pai ou com a mãe, e essa frieza emocional pode ter consequências muito graves”.

As razões que os fizeram chegar até ao centro educativo são várias, desde “drogas, companheiros, grupos, adrenalina”, explicou o diretor do CENP, Rogério Canhões.

Em declarações à Lusa, um dos jovens que esteve internado naquele centro – entre abril de 2011 e abril de 2013 -, atualmente com 20 anos e a trabalhar num hotel do centro da capital, disse que foi um assalto a uma residência, acrescido de outros pequenos furtos, que o levou ao cumprimento de pena.

“O ambiente onde eu vivia era muito pesado e havia de tudo um pouco: tráfico, assaltos, de vez em quando tiros”, disse o jovem, acrescentando que “faltava à escola, andava na rua, via uns a roubar e também ia”.

Ajudada pelo centro educativo a encontrar ocupação, uma rapariga de 17 anos, que cumpriu um ano de internamento e que saiu em abril deste ano, trabalha num café em Loures.

“Faltar à escola, alguns furtos e ter sido apanhada várias vezes sem bilhete nos transportes públicos”, foram os motivos que a levaram ao centro de reinserção. Com o internamento, conseguiu reatar a relação – até então degradada - com os pais. “Eles iam sempre visitar-me, ligavam-me todas as semanas, não faltava o telefonema”, frisou.

Três vezes por ano, o CENP organiza “o dia das famílias”. O objetivo é, “pela primeira vez na vida, dizer a estes pais as coisas boas que os miúdos fizeram”, disse Rogério Canhões.

Depois de cumprirem a medida, alguns jovens optam por emigrar, pois “têm noção que ao voltarem ao bairro [de origem] existe o risco de reincidência”, disse o diretor do CENP.

Em França, a trabalhar nas limpezas de um hotel, um rapaz de 19 anos, que cumpriu um ano de internamento por “furtos e tráfico de droga quando tinha 14 anos”, retomou a sua vida afastado do bairro de origem.

Com cinco irmãos e órfão de pai muito cedo, foi a mãe quem teve de cuidar da família. Foi muito difícil “ver os outros terem e querer também. Não gostava de pedir à minha mãe, ela já tinha muitas despesas”, reconheceu.

Segundo a psicóloga do CENP, Lúcia Soares, alguns jovens tem “uma dificuldade de lidar com a frustração do não ter. Este ter é uma tentativa de colmatar um vazio interior, afetivo muitas vezes, em que a adrenalina funciona como um antidepressivo”.

Apesar do futuro destes três jovens estar bem encaminhado, ainda falta ultrapassar o maior desafio, tudo porque, como disse Licínio Lima à agência Lusa, perdura na sociedade um estigma em relação aos jovens que passaram pelos centros de reinserção social, “que não os permite viver em liberdade, porque não há ninguém que os aceite”.



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