Investigador alemão defende importância da arqueologia na afirmação da soberania das Selvagens

Investigador alemão defende importância da arqueologia na afirmação da soberania das Selvagens

 

Lusa / AO online   Nacional   20 de Jun de 2015, 11:39

A afirmação da soberania das Selvagens passa por valorizar também a presença humana e os aspetos arqueológicos e não apenas as qualidades de reserva natural, defendeu, em declarações à agência Lusa, o investigador alemão Dietrich Putzer.

 

Este professor de física aplicada de Duesseldorf, apaixonado por insetos e terras remotas, desembarcou a 12 de junho na Selvagem Pequena, para mais uma estada de 21 dias, coincidente com a da equipa de vigilantes do Parque Natural da Madeira. A 300 quilómetros a sul do Funchal, o investigador disse temer que Espanha "leve a melhor" na disputa internacional pela extensão da Zona Económica Exclusiva (ZEE).

O subarquipélago das Selvagens é a segunda reserva natural mais antiga de país, estabelecida em 1971, e está atualmente no centro de uma polémica entre Portugal e Espanha, onde os vestígios da presença humana ao longo dos séculos poderão ser determinantes.

O Governo espanhol alega que as ilhas - Selvagem Grande, Selvagem Pequena e Ilhéu de Fora - devem ser consideradas "rochedos" por não ter havido ali povoamento nem atividades de caráter industrial.

Embora não pondo em causa a soberania portuguesa, a validação deste argumento implica que o mar territorial das Selvagens fique limitado a 12 milhas náuticas, permitindo que Espanha estenda a ZEE mais para norte, colocando-a praticamente a meio caminho entre Tenerife e a Madeira, que distam 245 milhas (452 quilómetros).

"É muito mar", desabafou Dietrich Putzer, sentado no alpendre da minúscula estação de vigilância da Selvagem Pequena, o único lugar com sombra suficiente para proteger a sua pele, fortemente queimada pelo sol.

"Primeiro, ficam com o mar. Depois, acabam ficando também com as ilhas", disse desalentado, afirmando ser fundamental evidenciar os aspetos arqueológicos, sobretudo na Selvagem Grande, onde todos os recantos falam de uma presença humana continuada.

Estudos e levantamentos feitos pelo próprio Dietrich Putzer, em colaboração com o arqueólogo madeirense Élvio Sousa, bem como por investigadores como Hartwing Steiner, Joerg Hansen e Hans Ulbrich, atestam a existência de abrigos, cisternas com levadas, muros compridos (um total de 3,5 quilómetros), veredas, terraços para cultivo, sepulturas, salinas e fornos de incineração de barrilha (planta usada no fabrico de sabão).

O diretor do departamento de Ciência e Recursos Naturais da Câmara do Funchal, Manuel Biscoito, confirmou que a Selvagem Grande foi a que mais trabalho deu, em termos de recuperação como reserva natural, devido às marcas da presença humana. Ao longo dos séculos, foram introduzidas diversas espécies que depois tiveram de ser erradicadas, como a "tabaqueira" (planta usada para lenha), os coelhos ou os murganhos.

No século XX, as atividades predominantes eram a pesca e a caça à cagarra, uma ave marinha que nidifica nas Selvagens e cuja população baixou drasticamente na década de 1960. Porém, na sequência da primeira expedição científica ao subarquipélago, em 1963, Alexander Zino, cidadão inglês, adquiriu o direito de caça à cagarra com o objetivo de por termo à atividade. A população começou então a crescer, tornando-se na espécie mais emblemática e mais estudada das ilhas.

Francis Zino seguiu as pegadas do pai. Herdou a paixão pelas aves, bem como a casa na Selvagem Grande, construída em 1967, e orgulha-se de pagar o IMI, tendo em conta que as ilhas pertencem administrativamente ao município do Funchal.

Em 1982, o Governo da Madeira construiu a estação de vigilância permanente na Selvagem Grande, contribuindo para o reforço da soberania, confirmada pela visita de três presidentes da República: Mário Soares (1991), Jorge Sampaio (2003) e Cavaco Silva (2013).

No alpendre da casa dos vigilantes, Dietrich Putzer apontou para os mastros à sua esquerda, onde esvoaçavam duas bandeiras, uma da República, outra da região autónoma. "A bandeirinha de Portugal foi eu que trouxe", disse. Depois, olhando o azul ao fundo, para lá do chão de areia onde os calcamares fazem os ninhos, suspirou: "É muito mar."

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