Industriais de laticínios em "completa impotência" para resolver "grave crise" do setor

Industriais de laticínios em "completa impotência" para resolver "grave crise" do setor

 

Lusa/AO Online   Economia   31 de Mai de 2016, 19:54

A Associação Nacional dos Industriais de Laticínios (ANIL) defendeu hoje no parlamento que a produção, a indústria e os decisores políticos encontram-se numa situação de "completa impotência" para resolver estruturalmente a "grave crise" do setor leiteiro.

“Não se perspetivam melhoras efetivas no futuro próximo, quer no domínio específico operacional da indústria nacional de laticínios, quer relativamente ao setor como um todo”, afirmou o diretor-geral da ANIL, Paulo Costa Leite, no âmbito de uma audiência sobre o setor leiteiro, na Comissão de Agricultura e Mar, na Assembleia da República.

De acordo com Paulo Costa Leite, os instrumentos ao dispor da indústria para fazer face à crise, consagrados no regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho, são “bastante limitados” e, mesmo assim, quando aplicados, constituem fatores de acentuação do desequilíbrio entre os Estados-membros do Norte a Sul da Europa”.

O representante dos industriais de laticínios disse que não se consegue encontrar uma medida consensual para resolver o problema do setor, considerando que é necessário concentrar esforços “no que falta e é possível ser feito internamente”.

No parlamento, a ANIL apresentou algumas propostas para minimizar o problema do setor leiteiro, desde substituir importações de produtos lácteos, assim como proteger a produção interna e privilegiar o consumo interno em bufetes escolares e cantinas dos organismos do Estado.

Segundo Paulo Costa Leite, um dos principais problemas é “a espiral da miséria dos preços do leite”, que está a prejudicar todo o setor, inclusive a distribuição.

O preço pago pelo leite em Portugal é muito semelhante à média europeia, sendo inclusive superior ao preço praticado na França, Alemanha e Bélgica, referiu o representante dos industriais de laticínios, sublinhando que, no entanto, os preços de venda ao público do leite em Portugal são mais reduzidos comparando a outros países da Europa.

Sobre o fim do regime das quotas leiteiras, o diretor-geral da ANIL referiu que a Europa está a produzir mais 73,1% de leite do que precisa para garantir a autossuficiência, frisando que tal situação origina o excesso de oferta e a degradação generalizada dos preços.

Paulo Costa Leite apontou ainda como barreira à resolução da crise do setor leiteiro as dificuldades no mercado de exportação, devido à crise do petróleo, nomeadamente no norte de África, Venezuela e Angola, assim como a questão do embargo russo aos produtos agrícolas europeus.

O representante da ANIL criticou ainda a conduta legislativa adotada por Portugal, considerando que tem prejudicado sistematicamente o setor e dando como exemplo a seguir o caso da vizinha Espanha.

“É sabido que este importante segmento em Espanha é unicamente abastecido pelos operadores espanhóis”, sublinhou o diretor-geral da ANIL, informando que se tal medida fosse implementada em Portugal representaria “a colocação no mercado de 90 milhões de litros de produção nacional”, que atualmente são importados e que correspondem a “cerca de 15% da produção nacional”.

Quando Portugal importa leite, “a legislação permite, mediante uma mera operação de reembalagem, que possam pôr o símbolo de sanidade nacional PT, sem menção do país de origem”, alertou o Paulo Costa Leite, explicando que, assim, é possível integrar no mercado produtos importados como se de produção nacional se tratassem.

Neste sentido, a deputada do CDS-PP Patrícia Fonseca lembrou que existe o selo “Portugal Sou Eu”, um programa do Ministério da Economia e do Emprego que visa valorizar a produção nacional e estimular a reindustrialização.

“Sobre o Portugal Sou Eu, o culpado sou eu”, afirmou Paulo Costa Leite, referindo que não sentiu que houvesse condições para que os laticínios fossem integrados no programa.

Para o dirigente da ANIL, o programa “é demasiado abrangente”, acrescentando que “deveria assumir outras características e ter outras potencialidades”.

 

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