Há 70 anos a colar pétalas à mão em andores de festa de Viana

Há 70 anos a colar pétalas à mão em andores de festa de Viana

 

Lusa/AO Online   Nacional   13 de Mai de 2016, 09:25

A tradição da confeção dos andores floridos das festas de Alvarães, em Viana do Castelo, completa este ano sete décadas, e nem "as mãos perras e olhos cansados" da idade fazem desistir quem iniciou aquela arte popular da freguesia.

 

Olímpia Sottomaior, de 87 anos, e Horácio Figueiras, de 83, envolveram-se em 1946 na confeção do primeiro andor florido da festa da Santa Cruz, em Alvarães, e desde então participam na tradição da freguesia da margem esquerda do rio Lima.

"Nunca parei porque gosto muito. Felizmente nunca estive doente a ponto de não poder participar. Dá-me prazer, no final, ver aquela confeção, porque não somos artistas", disse hoje à Lusa Olímpia Sottomaior.

A octogenária tem "vontade" de voltar a participar este ano "apesar das mãos já começarem a ficar perras e da vista cansada".

Se não conseguir colar as pétalas no andor, "trabalho muito minucioso" que exige destreza e precisão, pelo menos vai "dar uma mão a separar as pétalas das flores". Uma "azáfama" que começa dias antes da festa que decorre no próximo fim de semana.

As pétalas são coladas com a cola "milagre", como é conhecida. Feita à base de farinha, garante a humidade necessária para que as pétalas se aguentem vários dias "viçosas e coloridas".

A confeção dos 11 andores, um por cada lugar daquela vila, junta normalmente no pátio da casa do mordomo gente de todas as idades e profissões, "unidas pela devoção" à padroeira e para não deixar "morrer" a tradição que começou em 1946.

"Nesse ano só foi confecionado um andor. Depois, por proposta do padre da altura, é que começaram a ser feitos os 11, um por lugar da freguesia", recordou Olímpia, que ajudou a decorrer o primeiro andor.

"Não havia floristas e tínhamos de ir ao monte buscar as flores", lembrou Olímpia, na altura com 17 anos, acrescentando que para fazer face "aos milhares" de pétalas necessários a cada andor, plantava as flores no jardim de casa.

"Se fizesse falta, dávamos cabo dos nossos jardins. Cortávamos o que fizesse falta, por muito gosto que tivéssemos nas flores", disse, lamentando que a "vida atribulada" dos dias de hoje impeça os filhos e os netos de participarem assiduamente na tradição.

Horácio Figueiras tinha 13 anos quando iniciou a arte de decorar os andores e até hoje "o bichinho" não o largou.

"Estive sete anos sem participar na confeção porque tive que emigrar. Fazia falta ganhar dinheiro. Mal voltei, não me deixaram parar em casa", disse o carpinteiro que confecionou andores floridos de três lugares da freguesia.

Além da estrutura em madeira, Horácio aprendeu, ainda adolescente, a decorar os andores floridos e hoje "é muito exigente" com os mais novos.

"Se não estou aqui, quem orienta? É preciso saber colocar as pétalas. Se não há uma pessoa que saiba, fazem tudo torto. Nestes dias, praticamente não faço nada, mas estou mais cansado do que estivesse a trabalhar", reforçou o octogenário que ensinou a arte aos filhos - que a emigração também levou para fora da freguesia.

O único andor florido confecionado em 1946 foi feito na casa do pai de Maria Carmo Marques, hoje com 85 anos. Há vários anos que já "não consegue" ajudar a decorar o andor mas lembra-se "bem" da "emoção" que se viveu a casa do pai. Tinha 15 anos, quando a "freguesia de juntou" para fazer o primeiro andor florido.

"Era muito bonito. Muito bem trabalhado. Tiraram a porta do meu armário que tinha espelho para colocar o andor e refletir o centro decorado com trevo, bem-me-quer, mal-me-quer", recordou.

Os andores floridos de Alvarães, autênticas obras de arte popular desfilam no domingo, em procissão, aos ombros dos mordomos, sob o olhar atento e admirado de milhares de forasteiros que todos os anos se deslocam a Alvarães.


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