Grécia/Eleições: Otimismo do discurso político contrasta com ceticismo de eleitores em dia de votação

Grécia/Eleições: Otimismo do discurso político contrasta com ceticismo de eleitores em dia de votação

 

Lusa / AO online   Internacional   20 de Set de 2015, 11:42

Os líderes dos dois partidos que disputam a vitória nas legislativas antecipadas de hoje na Grécia votaram durante a manhã em duas escolas da capital grega e deixaram mensagens de confiança, que contrastam com o ceticismo de eleitores.

 

"O povo vai dar o seu voto a um governo que vai dar luta, não só na Europa, como dentro do país" nos próximos quatro anos. Nós mostramos que podemos abrir caminhos, mesmo quando não existem", disse Alexis Tsipras - líder do partido de esquerda Syriza e ex-primeiro-ministro, que tenta relegitimar o mandato nestas eleições antecipadas -- depois de ter votado no bairro de Kypseli, na zona central de Atenas.

Tsipras, 41 anos - que chegou à assembleia de voto, onde era esperado por muitos jornalistas, acompanhado por um grupo de militantes do partido e por vários seguranças -, afirmou que o povo "tem o futuro nas suas mãos" e abrirá o "caminho para uma nova era", dando "um forte mandato para quatro anos" ao governo.

O líder do partido conservador Nova Democracia (ND), Vangelis Meimarakis, votou no bairro de Maroussi, na zona norte de Atenas e após votar lançou críticas ao partido rival, que esteve sete meses no poder, afirmando que "os gregos querem ver-se livres de mentiras e trabalhar para um futuro melhor".

Com menos aparato mediático a aguarda-lo do que Tsipras, mas com um grupo de apoiantes mais numeroso e mais exuberante, Meimarakis foi recebido com aplausos e distribuiu cumprimentos e acenos à entrada e à saída da assembleia de voto.

O otimismo e confiança obrigatórios no discurso político não encontrou correspondência no estado de espírito de alguns dos eleitores que votaram nas mesmas assembleias de voto que Tsipras e Meimarakis. O denominador comum foi o ceticismo.

"Cumpro o meu dever cívico de votar, mas não tenho qualquer esperança em que estas eleições mudem realmente alguma coisa. Como todos gostaria de ter um governo com estabilidade, mas é apenas isso, um desejo, não é uma expectativa", disse à Lusa Matina Poala, que votou momentos antes de Tsipras.

Athanasios é estudante e diz ter "expectativas muito limitadas" sobre a contribuição destas eleições para melhorar a situação da Grécia.

"Nas anteriores eleições votámos para que houvesse mudança, e nada mudou. Agora duvido que alguma coisa mude também. O Syriza está a jogar um jogo muito perigoso", afirmou.

Athanasios estudou fora da Grécia no programa Erasmus e teve alguns colegas portugueses, que lhe ensinaram algumas palavras, como 'olá, bom dia' e 'obrigado' e que lhe falaram da situação de Portugal, que foi durante muito tempo comparada com a da Grécia.

"Gostava que os gregos tivessem uma atitude mais séria e se unissem como os portugueses para tentarem sair da crise", disse.

E na escola onde votou Meimarakis, Mariana, também jovem, não difere e diz que, "independentemente do resultado das eleições, pouco irá mudar".

"Além disso, apesar de não querer, provavelmente estarei a votar outra vez no ano que vem", acrescentou.

A idade não parece ser fator de influência na opinião, porque Nikos, com idade para ser avô de Mariana, disse à Lusa que "não há nada a esperar destas eleições. A única coisa certa são os impostos", mas mesmo assim ainda adianta que "é preciso mudar de governo" porque é necessária "estabilidade".

O estado de espírito cético dos gregos é também o tema de um 'cartoon' no diário liberal Ikatimerini que mostra dois jovens deitados na relva de um parque. Um deles pergunta: "quando é que vamos votar?" e o outro responde: "quando eles acrescentarem ao boletim de voto a opção 'não gosto'".

Estas eleições antecipadas foram convocadas na sequência da demissão de Alexis Tsipras do cargo de primeiro-ministro, em 20 de agosto, depois de perder uma parte da sua bancada parlamentar devido a uma cisão de 25 deputados da ala mais à esquerda do partido quando o parlamento grego aprovou um novo pacote de austeridade que Tsipras acordou com Bruxelas, recuando nas promessas de que iria acabar com a política de austeridade na Grécia.

Nem o Syriza, nem o ND conseguiram, nas sondagens divulgadas até sexta-feira, chegar perto dos 38% de votos necessários para conseguir uma maioria parlamentar (151 deputados), pelo que a necessidade de formação de um governo de coligação é para já o único resultado eleitoral que é tido como certo.

As primeiras horas de votação foram calmas, sem filas. Um aumento da abstenção é um dos fatores que poderá influenciar o resultado eleitoral, mas diz-se em Atenas que os gregos têm o hábito de votar mais pela tarde.

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