Governo cometeu "erro político enorme" ao não explicar real situação de Portugal

Governo cometeu "erro político enorme" ao não explicar real situação de Portugal

 

Lusa / AO online   Economia   6 de Out de 2012, 12:14

O antigo ministro das Finanças Eduardo Catroga disse hoje que o Governo cometeu um "erro político enorme" ao não explicar aos portugueses a verdadeira situação económica do país, que agora se depara com novas medidas de austeridade.

 

"Penso que [o erro político] está ligado com a seriedade do primeiro-ministro, que referiu em campanha eleitoral - não o devia ter referido, mas referiu - o compromisso de não se desculpar com a herança do passado. Mas aqui não se trata de se desculpar, trata-se de clarificar a base de partida", disse Catroga em entrevista à TSF e ao Dinheiro Vivo.

O atual presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP realça, todavia, que o "pecado original de todo este processo começa por ser técnico", já que "em 2010 e 2011 a base de partida real do défice público devia ser 11% ou 12% do Produto Interno Bruto (PIB)".

"O certo é que nunca foi comunicada aos portugueses a verdadeira base de partida, a verdadeira dívida pública e o verdadeiro défice público. A 'troika' ainda fez alguma correção das variáveis, mas foi tecnicamente imperfeita, portanto inquinou toda a fixação de objetivos", comentou o quadro da elétrica portuguesa.

Eduardo Catroga diz também que o Governo "explicou mal" o "esforço que seria necessário fazer" no ajustamento económico português e o efeito que o mesmo teria sobre os cidadãos.

"Este cálculo era fundamental para medirmos o esforço que íamos pedir aos portugueses nos próximos anos", declara, sustentando também que se verificou "um aumento brutal de impostos" porque se deixou "aumentar brutalmente a despesa pública e a dívida pública".

Catroga mostrou-se ainda na entrevista hoje divulgada contra uma eventual privatização da Caixa Geral de Depósitos (CGD), defendendo que o banco público deve correr "mais riscos" no financiamento à economia.

"Aquilo que propus e continuo a propor é que a CGD deve estar sujeita a uma orientação estratégica do Governo, em representação do acionista Estado, no sentido de orientar os recursos para o tecido produtivo, para as empresas, para as PME e para os investimentos produtivos", disse o antigo governante.

O Estado, como acionista, deve dar instruções à CGD para que esta corra "mais riscos com as empresas", o que, adverte, "pode ser contrário aos interesses dos investidores privados", prosseguiu.

O Expresso noticiou recentemente que o Governo discutiu com a 'troika' (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu) vender 20 por cento da CGD a investidores institucionais e 20 por cento ao público em geral, através da entrada em bolsa.

Analisando o desempenho do Executivo liderado por Pedro Passos Coelho, o antigo ministro de Cavaco Silva diz que "globalmente o Governo fez coisas boas durante 15 meses e foi infeliz durante duas semanas", reconhecendo que será necessário um "golpe de rins" para o primeiro-ministro voltar à mó de cima.

Eduardo Catroga diz ainda à TSF e ao Dinheiro Vivo que um "reajustamento" no Governo é "perfeitamente natural a meio do mandato, sobretudo numa conjuntura extraordinariamente difícil", mas escusa-se a comentar possíveis nomes de ministros remodeláveis.

O presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP elogia ainda Vítor Gaspar, o "homem certo para a conjuntura do país" e uma "mais-valia" na recuperação da "credibilidade externa" de Portugal.

Sobre o principal partido da oposição, Catroga pede "decoro" a alguns "protagonistas" que "contribuíram para o acumular de problemas" e falam agora "como se não tivessem nada a ver com isto".

O memorando de entendimento entre Portugal e a 'troika' foi aprovado em maio de 2011, depois de um processo negocial que envolveu o Governo de José Sócrates, uma equipa do PSD (então maior partido da oposição) liderada por Eduardo Catroga e representantes da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional.


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