Falta de dinheiro obriga adultos a abandonar estudos pela segunda vez

Falta de dinheiro obriga adultos a abandonar estudos pela segunda vez

 

Lusa / AO online   Economia   20 de Nov de 2011, 11:54

Muitos adultos estão a abandonar os estudos pela segunda vez na vida porque já não conseguem suportar as despesas. No ensino superior privado é neste segmento que mais se notam os efeitos da crise.

O ISLA Campus Lisboa perdeu metade dos alunos com mais de 23 anos. O diretor-geral, Nelson Brito, sabe que a perda de rendimento e o desemprego estão na base do fenómeno.

“Noto uma maior dificuldade em cumprirem prazos de pagamento das propinas mensais e noto uma dificuldade ainda maior na população estudantil dos maiores de 23 anos, pessoas que já trabalham”, afirma.

“Pelo facto de ter aumentado o desemprego, têm hoje menores condições para continuarem os seus estudos”, observa o responsável pelo antigo Instituto Superior de Línguas e Administração, hoje integrado numa rede internacional.

“Perante a situação de agravamento no seu emprego e de diminuírem as deduções fiscais com educação, as pessoas estão mais renitentes em tomar a decisão de vir estudar novamente”, observa.

Nelson Brito diz que a internacionalização do ISLA permite compensar a perda dos trabalhadores estudantes através de alunos que entram diretamente do 12.º ano, mas a situação está longe de corresponder às expetativas: “Devíamos estar a crescer e não conseguimos porque perdemos 50 por cento dos alunos que já trabalham”.

Os atrasos nos pagamentos das bolsas também não ajudam. A instituição está abrangida pelo programa de bolsas do Estado. Habitualmente tem 150 pedidos de bolsa de Ação Social e ainda não sabe quantas vai perder.

Dos alunos vão chegando avisos: “Dizem que dificilmente continuarão a estudar connosco se não receberem a bolsa”.

As propinas nos estabelecimentos privados rondam os 3.000 a 3.500 euros.

Outras instituições contactadas pela Lusa ainda não querem assumir perdas, mas reconhecem que há cada vez mais estudantes a pedir flexibilidade no pagamento.

A Universidade Católica diz que procura dar resposta a esta realidade, mas escusa-se a avançar dados sobre a dimensão do problema. Reconhece, porém, que até ao fim ano haverá mais desistências.

Na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), no centro da cidade, estudam muitos trabalhadores. O diretor da Administração Escolar, Reginaldo Almeida, diz que perdas de alunos via 12.º ano são por vezes compensadas pelo contingente dos maiores de 23 anos.

Mas há o reverso da medalha – “Um crescente número de alunos com mensalidades em atraso”.

A redução das bolsas e as crescentes dificuldades financeiras obrigam a UAL a ter hoje “uma política de Ação Social mais alargada”.

Ainda não estão conferidos todos os resultados dos processos para atribuição de bolsa, mas o diretor admite que possa ter reduções na ordem dos 30 por cento, ao abrigo do programa da Direcção-Geral do Ensino Superior que envolve os privados.

Para evitar o abandono, a UAL está a adotar planos e condições de pagamento que em anos anteriores “não eram necessários”.

O presidente da Associação Portuguesa de Ensino Superior Privado não tem dúvidas de que muitas destas situações vão acabar em desistência.

“Algumas instituições sentem cada vez mais pressão por parte dos estudantes para encontrar soluções novas para os problemas que eles estão a enfrentar”, conta João Redondo.

“É preciso uma solução geral e não de cada instituição para esta gente poder continuar a estudar”, defende, antevendo que este ano haverá mais alunos com dificuldades e a abandonar os estudos por motivos financeiros.

Diz que ainda não se pode falar numa “hecatombe”, mas admite que em 80 a 85 por cento dos casos de abandono, os motivos apontados são dificuldades no pagamento das propinas.

O IADE e o IPAM, institutos do mesmo grupo para as áreas de design, marketing e publicidade, confirmam que os adultos que procuram uma segunda oportunidade serão os mais afetados.


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