Estudo alerta que sindicalismo tem de se renovar para não definhar

Estudo alerta que sindicalismo tem de se renovar para não definhar

 

Lusa/AO Online   Nacional   15 de Fev de 2017, 08:58

Um doutoramento da Universidade de Coimbra concluiu que o sindicalismo em Portugal tem de se renovar e de se adaptar à nova realidade laboral para não definhar, alertando para a dificuldade de penetração sindical nos segmentos mais precários.

 

O sindicalismo português "ou se renova ou está condenado" a servir "uns poucos, porque a maioria não serão trabalhadores assalariados", sublinha Dora Fonseca, autora de uma tese de doutoramento em Sociologia que analisa os movimentos sociais e o sindicalismo durante a crise portuguesa.

Com uma realidade laboral em que "o trabalho precário é cada vez mais a norma do que a exceção", os sindicatos têm de se adaptar "porque senão rapidamente ficam sem filiados", disse à agência Lusa a investigadora, considerando que, apesar de haver alguns avanços, é necessária uma renovação "por completo".

"A grande falha do movimento sindical é a de não encontrar formas inovadoras", explica Dora Fonseca, que para a sua tese analisou a relação entre a central sindical CGTP e os movimentos sociais que ganharam visibilidade durante a crise portuguesa, nomeadamente os Precários Inflexíveis, Ferve (Fartos D'Estes Recibos Verdes), Mayday, Geração À Rasca e Que se Lixe a Troika.

De acordo com a investigadora, organizações como os Precários Inflexíveis ou Ferve surgiram "porque havia uma invisibilidade das questões de precariedade laboral", com estes grupos a serem criados não com a pretensão de substituir sindicatos, mas "com o intuito de chamarem a atenção para esta realidade e também de impulsionarem os sindicatos a assumirem as lutas dos trabalhadores precários".

Desde então, houve mudanças no sindicalismo português, nomeadamente num maior enfoque nos problemas da precariedade, constata, referindo que nos planos de ação da CGTP já é "dada maior ênfase" a este problema.

No entanto, "o movimento sindical [português] tem cerca de 100 anos de história e tem uma estrutura muito implantada".

"A imagem do sindicalismo continua muito ligada ao operário - àquela conceção do sindicalismo do século XIX e início do século XX, do operário das linhas de montagem, da produção homogeneizada de base industrial operária", sublinha, constatando que há um "peso muito grande das gerações mais antigas" no sindicato, "que têm outra conceção de luta e de organização".

A própria linguagem utilizada, com "um vocabulário muito arcaico", leva a que haja "uma grande dificuldade das novas gerações em identificarem-se" com o sindicalismo.

"Têm de se adaptar às novas tendências sem perderem a sua identidade", defendeu, não percebendo o porquê da pouca presença dos sindicatos "nas plataformas digitais".

Segundo Dora Fonseca, "o declínio da sindicalização é uma realidade ainda mais expressiva no caso dos trabalhadores precários e denuncia a existência de dificuldades de integração desses trabalhadores nas estruturas sindicais".

Essas dificuldades estão relacionadas não só com a imagem do sindicalismo, mas também com a presença partidária nos sindicatos, que "tem vindo a colocar entraves importantes à participação e à penetração do discurso sindicalista junto da sociedade, em particular dos jovens e dos segmentos mais precarizados".

Os sindicatos, estruturas "organizadas em pirâmide, centralizadas, burocráticas e rígidas", deverão também reformular os seus objetivos e reestruturar os canais de comunicação e de tomada de decisão, "no sentido de um modelo de sindicalismo mais dinâmico, descentralizado, horizontal e flexível".

Para a autora do doutoramento, é importante que a ação sindical evolua "de uma orientação reivindicativa e muitas vezes defensiva para uma orientação que procure abrir novos caminhos emancipatórios".

 

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