Especialista diz que mudanças no clima são já visíveis nos incêndios atuais

Especialista diz que mudanças no clima são já visíveis nos incêndios atuais

 

Lusa/AO online   Nacional   20 de Fev de 2018, 14:38

As mudanças no clima são já visíveis nos incêndios atuais e verifica-se uma tendência crescente de aumento do número e da dimensão dos maiores fogos, afirmou o investigador Paulo Fernandes, durante o Congresso Nacional sobre Alterações Climáticas.

“No espaço de apenas duas décadas o tamanho máximo dos incêndios em Portugal aumentou e nos incêndios trágicos de junho e outubro de 2017 foram visíveis as marcas da alteração climática”, frisou o especialista da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Durante dois dias, a investigação que se faz na UTAD esteve em destaque no Congresso Nacional sobre Alterações Climáticas que decorreu no campus da academia, em Vila Real.

Paulo Fernandes, investigador do Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB), considerou que as alterações climáticas “atuarão presumivelmente no sentido de favorecer condições pirometeorológicas conducentes ao aumento da incidência e gravidade dos fogos florestais”.

“Esperam-se acréscimos na frequência e magnitude de fenómenos extremos com influência no comportamento do fogo, nomeadamente temperaturas mais elevadas, períodos de seca mais prolongados e mais severos e maior instabilidade atmosférica”, salientou.

O especialista disse que “as mudanças no clima são já visíveis nos incêndios atuais, verificando-se uma tendência crescente de aumento da dimensão dos maiores fogos bem como do seu número”, embora ressalve a “dificuldade em destrinçar o efeito climático do efeito de aumento da continuidade e combustibilidade do espaço florestal”.

De acordo com Paulo Fernandes, “alguns estudos extrapolam diretamente para o clima futuro as relações atuais entre condições meteorológicas e atividade de fogo, obtendo previsões de triplicação (ou mais) da área ardida média anual”.

“Tais estimativas são, contudo, simplistas e irrealistas por não considerarem simultaneamente as alterações socioeconómicas e os tipos de coberto vegetal que acompanharão as alterações climáticas, assim como as alterações na quantidade de combustível determinadas pela produtividade primária líquida e efeito de fertilização do CO2”, acrescentou.

No entanto, considerou que, “apesar das incertezas existentes, é possível tirar partido dos atuais modelos e ferramentas de simulação para antever o futuro regime de fogo em função de cenários distintos”.

Para Rui Cortes, do departamento de Ciências Florestais e Arquitetura Paisagista da UTAD, “um dos fenómenos mais dramáticos resultantes das alterações climáticas são os extremos hidrológicos, com particular relevância para as consequências resultantes dos picos de cheia”.

Fenómenos que “são ainda amplificados pelo efeito dos fogos florestais”.

“A perda de solo e a acumulação de sedimentos nos rios, que bloqueiam o fluxo de água, traduz-se ainda por um rápido aumento de erosão fluvial, com a paralela e súbita progressão de caudais de máxima cheia, o que incrementa a sua perigosidade e conduz também ao alargamento do leito de cheia, pondo em causa as atividades económicas existentes”, referiu.

João Santos, do CITAB, falou sobre os desafios que as alterações climáticas impõem nos sistemas agroflorestais.

De acordo com o especialista, os cenários de alterações climáticas futuras para Portugal, projetam diminuições significativas na precipitação e aumentos assinaláveis na temperatura do ar, agravados por aumentos na probabilidade de ocorrência de eventos meteorológicos extremos (secas e ondas de calor).

“A identificação rigorosa dessas alterações potenciará o planeamento atempado e promoverá a adoção de medidas de adaptação adequadas para o setor agroflorestal”, sublinhou.



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