"El comandante" do socialismo do século XXI

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Hugo Chavez de visita ao Irão

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O Presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frías, que morreu terça-feira, ganhou dimensão mundial pelas políticas sociais para os mais desfavorecidos, pelas suas posições antiamericanas e pelas amizades com figuras tão controversas como Fídel Castro, Ahmadinejad ou Kadhafi.
 

Desde a sua primeira eleição em 1998, Chávez, um antigo paraquedista militar, impôs-se como o homem forte de Venezuela movido pela ambição de implementar no país o seu projeto de "socialismo do século XXI", inspirado em Simon Bolivar, figura emblemática da luta pela independência da Venezuela relativamente a Espanha.

Aos 58 anos, conseguiu ganhar todas as eleições que disputou, apesar das acusações de "autoritarismo" dos seus adversários.

Ao assumir o poder, em fevereiro de 1999, Chávez dissolveu o Congresso, reformou a Constituição, mudou o nome do país para República Bolivariana da Venezuela e alargou de quatro para seis anos o mandato presidencial.

A sua terceira vitória foi nas eleições presidenciais de outubro com 54,42 por cento dos votos, não tendo chegado a tomar posse para um mandato que terminaria em 2019.

De estatura imponente, orador incansável, Chávez, que se dizia completamente curado do cancro que lhe foi diagnosticado em julho de 2011, foi submetido a 11 de dezembro, em Cuba, à quarta operação em 18 meses a um cancro localizado na zona pélvica.

A intervenção cirúrgica impediu-o de estar presente, a 10 de janeiro, na tomada de posse para aquele que seria o seu terceiro mandato como presidente da Venezuela, provocando um intenso debate sobre a sua legitimidade para continuar a exercer o cargo.

Em meados de fevereiro anunciou, na rede social twitter, que tinha regressado à Venezuela, sem que tenha sido divulgada qualquer imagem desse momento.

Antes do seu regresso surpresa de Cuba, Hugo Chávez manteve-se silencioso e sem aparecer por mais de dois meses, até à difusão a 14 de fevereiro de fotografias numa cama de hospital em Cuba.

Conhecido como "el comandante", os seus apoiantes viam-no como um líder preocupado com as classes mais pobres e defensor de uma "democracia participativa", enquanto os detratores condenavam a sua omnipresença e a instrumentalização dos meios do Estado para se eternizar no poder.

Acusavam-no também de pretender criar um regime parecido com o cubano de Fidel Castro, por quem não escondia ter uma profunda simpatia.

Fortemente crítico dos Estados Unidos, era também amigo de líderes controversos como os presidentes do Irão, Mahmud Ahmadinejad, e da Síria, Bashar al-Assad, ou do deposto e morto antigo líder da Líbia, Muammar Kadhafi.

Bisneto de Pedro Pérez Delgado, um abastado general, mais conhecido como "Maisanta", que lutou contra a ditadura de Juan Vicente Gómez, Chávez é o segundo de sete filhos de um casal de professores de uma zona rural do estado de Barinas, oeste da Venezuela.

Militar de carreira, Hugo Chávez Frías foi cofundador, em 1982, do Movimento Bolivariano Revolucionário 200, composto por oficiais subalternos, e em 1992 liderou uma fracassada intentona golpista contra o então Presidente Carlos Andrés Pérez, pela qual foi preso e depois indultado por Rafael Caldera.

Dez anos depois, quando era já Presidente da Venezuela, ele próprio enfrentou, em abril de 2002, um golpe de Estado que o afastou do poder durante três dias.

Depois desta tentativa, passou a dividir o mundo em amigos e adversários, qualificando os seus opositores de "traidores" e "apátridas".

Enérgico, implacável com os adversários e carismático, misturava nas suas intervenções públicas canções românticas, insultos ou exemplos de erudição.

Em 2007, na XVII Cimeira Iberoamericana, o seu discurso inflamado de críticas a Espanha, por alinhar com posições dos Estados Unidos, provocou a irritação do rei Juan Carlos, que o repreendeu com a célebre frase "Porque não te calas?" .

Os analistas políticos consideravam-no uma mistura contraditória de esquerdismo e militarismo, um líder que se tornou num modelo para muitos dirigentes latino-americanos de esquerda.

Defensor da união da América Latina, estabeleceu alianças estratégicas com a Rússia, China ou Irão, mas nunca suspendeu o fornecimento de petróleo aos Estados Unidos da América, apesar das recorrentes críticas ao "imperialismo yankee".

Católico, divorciado duas vezes e pai de duas filhas, afirmava-se simpatizante de Che Guevara, Mao Zedong e Karl Marx e tinha no basebol o seu desporto de eleição.

Durante a sua gestão nacionalizou empresas como a Eletricidade de Caracas, a Companhia Anónima Nacional de Telefones da Venezuela e vários bancos, incluindo as sucursais venezuelanas de bancos estrangeiros.

Enquanto presidente, Hugo Chávez fez várias visitas oficiais e escalas em Portugal, sobretudo durante os executivos socialistas de José Sócrates, que considerava como o seu principal amigo europeu. Um cartaz de Chavéz com o ex-primeiro-ministro português chegou mesmo a ser usado numa das suas campanhas à reeleição como Presidente da Venezuela.

A primeira visita oficial a Portugal aconteceu em 2001, tendo nessa altura sido distinguido pelo então presidente da República, Jorge Sampaio, com a Ordem do Infante D. Henrique, a última ocorreu em outubro de 2010.

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