Doentes oncológicos em casa precisam de mais apoio e melhor acesso a medicação

Doentes oncológicos em casa precisam de mais apoio e melhor acesso a medicação

 

Lusa/AO Online   Nacional   9 de Abr de 2016, 13:23

O enfermeiro de cuidados paliativos Bruno Fonseca defendeu hoje serem necessárias em Portugal mais equipas de cuidados paliativos comunitários para apoiar doentes oncológicos em casa, que precisam também de acesso mais facilitado à medicação para a dor.

“É preciso facultar a medicação e, acima de tudo, é absolutamente fundamental implementar equipas comunitárias de cuidados paliativos”, porque, “infelizmente, em termos geográficos, os cuidados paliativos ainda estão muito mal distribuídos em Portugal”, afirmou.

Bruno Fonseca, enfermeiro que integra a Equipa de Cuidados Paliativos da Unidade Local de Saúde (ULS) de Matosinhos, falava à agência Lusa à margem da 12.ª edição dos Encontros da Primavera, um congresso especializado em oncologia que termina hoje, em Évora.

O enfermeiro foi um dos oradores de hoje, numa sessão sobre dor oncológica, e interveio acerca da “Gestão da Dor Oncológica em Cuidados Paliativos Domiciliários”.

À margem da sessão, Bruno Fonseca explicou à Lusa que trabalha, essencialmente, “com doentes oncológicos em fase terminal que estão em casa” e cuja doença provoca dor oncológica.

“É uma dor intensa e, muitas vezes, uma dor mista, em que há vários mecanismos de dor envolvidos, pelo que é difícil de tratar”, com o tratamento a requerer “diferentes fármacos”, disse.

E, com uma rede de cuidados paliativos “desigual” em Portugal e a existência de “mecanismos burocráticos”, nem sempre é fácil aceder a medicamentos e opiáceos para tratar a dor oncológica.

“Na minha instituição, até porque somos uma ULS, o fornecimento de medicamentos e opiáceos é pela farmácia hospitalar, portanto, é muito fácil para nós, se tivermos um doente em casa que está descompensado, acedermos a medicação para a administrarmos na hora”, indicou.

Contudo, alertou, “há outras zonas do país em que isso é difícil”, porque “há mecanismos burocráticos que impedem o normal aviamento dos opiáceos, nomeadamente as morfinas, que são medicação de controlo obrigatório, e há outras dificuldades com as receitas”, pois, “muitas vezes, os próprios médicos de família têm dificuldades em aviá-las”.

Segundo Bruno Fonseca, em termos burocráticos e legais, um dos obstáculos é a inexistência de protocolos nas administrações regionais de Saúde (ARS) para que que um centro de Saúde se abasteça desta medicação na farmácia hospitalar da sua zona.

Se um centro de Saúde precisar de ir buscar esta medicação, “é necessário que exista algum tipo de protocolo na ARS que permita levantar os medicamentos na farmácia hospitalar”, para fornecer ou administrar aos doentes, mas, “muitas vezes, estes protocolos não existem”, dificultando o acesso a fármacos para tratar doentes oncológicos que estão em casa, argumentou.

“É necessário os fármacos estarem mais disponíveis. Se não houver fármacos disponíveis, não vale a pena dizerem que é possível controlar doentes com dor oncológica em casa porque não é”, avisou.

E outro problema é não haver equipas de cuidados continuados na comunidade disseminadas pelo país, realçou o enfermeiro, defendendo que é preciso ter “mais pessoas treinadas no terreno, principalmente médicos e enfermeiros”, capazes de apoiar os doentes terminais e as suas famílias.

“Há equipas aqui e ali, há focos, mas, infelizmente, não estão ainda generalizadas. Tal como temos cardiologia e consultas de ortopedia pelo país, também devíamos ter cuidados paliativos na comunidade, porque é em casa que as pessoas querem estar na fase final da vida. Mas com qualidade de vida”, afirmou.

Os Encontros da Primavera, que juntaram em Évora mais de mil profissionais de saúde especializados em oncologia, desde quinta-feira, são o primeiro congresso português da especialidade acreditado pelo European Accreditation Council for Continuing Medical Education.


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