África do Sul

Divisão e indisciplina marcam conferência do ANC


 

Lusa/AO   Internacional   17 de Dez de 2007, 05:20

A 52ª Conferência Nacional do Congresso Nacional Africano (ANC), entra hoje no seu segundo dia em Polokwane, província do Limpopo, sob o espectro da divisão e indisciplina que marcaram a sessão de abertura.
A conferência nacional é o órgão máximo de decisão no que respeita à nomeação da liderança do movimento de libertação que ocupa o poder na África do Sul.

    Na reunião deverá ser eleito o órgão supremo do ANC, o seu Comité Executivo Nacional (NEC), o presidente, vice-presidente e o secretário-geral, bem como as restantes figuras de topo, mas o processo de nomeações para as posições de liderança não ficou domingo completado, o que suscita dúvidas sobre a possibilidade de se saber hoje será o timoneiro do ANC nos próximos 5 anos.

    O primeiro dia de trabalhos da 52ª Conferência Nacional ficou marcado domingo pelas profundas divisões internas e pela indisciplina, situações que não se verificavam no movimento desde a sua legalização, em 1990, pelo então presidente FW De Klerk.

    Thabo Mbeki, o actual líder e presidente da República, e Jacob Zuma, o "vice" que recebeu a grande maioria das nomeações das estruturas provinciais, protagonizam dois campos distintos, duas facções rivais que não hesitaram em entrar na gritaria e no insulto para se fazerem ouvir neste fórum.

    O presidente nacional do ANC, Mosioua Lekota (ministro da Defesa e leal ao presidente Mbeki) foi domingo a figura mais criticada pela facção rival de Zuma, tendo perdido em várias ocasiões o controlo dos trabalhos.

    Os delegados manifestaram também ruidosamente a sua oposição à contagem electrónica dos votos, tendo forçado a um compromisso entre as duas facções segundo o qual os votos serão contados manualmente embora com o "back-up" informático da máquina partidária.

    Esta foi uma clara indicação da desconfiança existente no seio da "facção Jacob Zuma", que receia uma manipulação dos resultados pela actual liderança.

    O longo discurso (cerca de 2 horas) do presidente Mbeki, no qual tentou alertar os delegados para os perigos da corrupção e do carreirismo crescentes entre os dirigentes, não pareceu granjear-lhe novos aliados.

    Pelo contrário, a maioria dos mais de quatro mil delegados reagiu com indiferença e mesmo tédio à retórica presidencial.

    A própria conferência é um espelho dos desequilíbrios que o ANC pós-Mandela criou no país e do distanciamento entre as bases e a liderança.

    Vários observadores presentes realçaram o contraste entre a frota de automóveis de luxo em que os dirigentes se deslocam para a reunião magna e os velhos autocarros que transportaram a esmagadora maioria dos delegados das nove províncias sul-africanas para Polokwane.

    Este cada vez maior fosso entre ricos e pobres, patente no movimento e na sociedade, é um dos factores de insatisfação a nível das bases contra o presidente Mbeki, e que poderá ditar - talvez ainda no decorrer do dia de hoje - um triunfo de Jacob Zuma na corrida à liderança do movimento.

    Com forte apoio no movimento sindical, Zuma é, à entrada do segundo dia da conferência, o favorito à vitória.

    E se tal se confirmar Thabo Mbeki poderá ser forçado a convocar eleições antecipadas, uma vez que os quase dois anos de mandato que ainda tem para cumprir como chefe do Estado, poderão ser impossíveis de cumprir com um mínimo de dignidade e eficiência se Zuma vier a ocupar a presidência do ANC e o poder se repartir por dois centros antagónicos.


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