Dilma Rousseff, a líder de esquerda que perdeu a batalha da destituição

Dilma Rousseff, a líder de esquerda que perdeu a batalha da destituição

 

Lusa/AO Online   Internacional   31 de Ago de 2016, 19:52

Dilma Rousseff perdeu hoje a maior batalha da sua vida política ao ser destituída pelo Senado do Brasil do cargo de Presidente da República.

Os senadores aprovaram a destituição de Dilma Rousseff com 61 votos a favor e 20 votos contra, mas a agora ex-Presidente manteve os seus direitos políticos e pode continuar a candidatar-se e a ocupar cargos públicos, depois de uma reviravolta no processo, que resultou numa votação separada sobre os direitos políticos.

Ao longo dos seus 68 anos de vida, Dilma Rousseff foi uma acesa opositora da ditadura militar brasileira. Combateu na guerrilha, viveu na clandestinidade, foi presa e torturada em 1970 e tornou-se um dos símbolos da resistência, a par do sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, líder histórico do Partido dos Trabalhadores (PT) e seu antecessor como chefe de Estado.

Considerada uma mulher de temperamento forte e com pouca paciência, a Presidente destituída nasceu na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, numa família de classe média.

Ao sair da prisão, tornou-se economista e com o regresso da democracia ao Brasil em 1985 ocupou vários cargos públicos.

Durante a Presidência de Lula da Silva, ganhou projeção ao ser nomeada ministra da Casa Civil. Em 2009, foi escolhida para a liderança do PT, apresentando-se como candidata a Presidente no ano seguinte.

Sem nunca se ter sujeito a eleições anteriormente, Dilma Rousseff foi eleita pela primeira vez em 2010 e chegou a ser considerada a segunda mulher mais poderosa do mundo, atrás apenas da chanceler alemã, Angela Merkel, no ranking de 2013 da revista Forbes.

Nesse ano, colheu quase 80% de aprovação nas sondagens, pelos seus esforços de combate à pobreza e à fome, ultrapassando a popularidade conseguida pelo seu antecessor, o "pai dos pobres", cuja governação é ainda hoje citada como um bom exemplo em todo o mundo.

Mas em junho de 2013, o sucesso mediático e a popularidade começaram a desaparecer. A falta de experiência e de aliados entre os partidos e os primeiros sinais de problemas na política económica afetaram a sua imagem pública.

Dilma Rousseff passou a governar com a espada da instabilidade sobre a cabeça, enfrentando críticas cada vez mais contundentes de opositores e reações negativas dos mercados, contrários ao aumento dos gastos públicos.

O apoio dado a governos de esquerda na América Latina - Venezuela, Cuba, Bolívia e até à Argentina - prejudicou a imagem internacional da presidente brasileira, que se viu também envolvida no embaraço diplomático causado pela revelação de que as suas comunicações eram intercetadas pelos Estados Unidos.

Com a crise económica a bater à porta do Brasil, Dilma Rousseff conseguiu ser reeleita em 2014, com 52% dos votos, mas os resultados não foram suficientes para pacificar o país.

Ao contrário do que aconteceu no passado, desta vez os seus grandes adversários não foram os militares, mas a insatisfação da população que passou a mobilizar-se em protestos contra o Governo.

Para os brasileiros, Dilma Rousseff passou a ser a responsável pela crise económica que levou o Produto Interno Bruto (PIB) do país a uma queda de 3,8% em 2015 e gerou uma subida da inflação e do desemprego.

A isso somaram-se as investigações dos escândalos de corrupção na petrolífera estatal Petrobras, que envolveram o seu padrinho político, Lula da Silva, além de outros nomes históricos do PT.

A tempestade política agravou-se depois de parte dos partidos que suportavam o governo terem mudado de posição, viabilizando o processo de destituição, conhecido no Brasil como 'impeachment'.

No processo de destituição, que durou nove meses, Dilma Rousseff acabou condenada por ter cometido crime de responsabilidade ao realizar manobras fiscais ilegais e aprovar despesas extraordinárias sem autorização do Congresso.

Nos seus últimos discursos, a agora ex-Presidente afirmou que seu afastamento seria um "golpe parlamentar" que mancharia a história da democracia brasileira.

Dilma Rousseff vai despedir-se do cargo de Presidente da República do Brasil ainda hoje, numa conferência de imprensa em Brasília.


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