Destroços de navio português considerados "marco" no estudo do comércio de escravos


 

Lusa/AO online   Nacional   1 de Jun de 2015, 17:56

A descoberta dos destroços de um navio português que naufragou no sul de África e onde mais de 200 cativos morreram afogados constitui um marco no estudo do comércio de escravos, referiu a Smithsonian Institution dos Estados Unidos.

 

O afundamento do São José-Paquete de África, um navio português que naufragou em 1794 ao largo da atual Cidade do Cabo, quando se dirigia para o Brasil vai ser recordado em duas cerimónias previstas para quinta-feira na cidade sul-africana, referiu em comunicado a instituição de investigação norte-americana.

"Esta descoberta é significativa porque nunca houve documentação arqueológica de um navio que se afundou e se perdeu enquanto transportava uma carga de pessoas escravizadas", disse Lonnie G. Bunch, diretor-fundador do Museu Nacional Smithsonian de História e Cultura Africana-Americana (NMAAHC).

Cerca de 400 escravos capturados em Moçambique estavam a bordo quando o navio se afundou após embater em rochas submersas a cerca de 100 metros da costa. A tripulação e alguns dos cativos conseguiram sobreviver, e estes escravos foram de seguida vendidos na Cidade do Cabo.

Os artefactos recuperados do navio vão ser emprestados por um largo período ao NMAAHC pelo Iziko Museums da África do Sul.

Em simultâneo, terra proveniente da ilha de Moçambique, o local da largada do São José, será depositada junto aos destroços do navio por mergulhadores de Moçambique, África do Sul e Estados Unidos.

"Talvez o maior símbolo do comércio de escravos transatlântico sejam os navios que transportaram milhões de escravos africanos cativos ao longo do Atlântico que nunca mais regressaram", disse Bunch.

O navio naufragado foi inicialmente descoberto por "caçadores de tesouros" amadores sul-africanos na década de 1980, mas foi erradamente identificado como sendo de pavilhão holandês, disse a Smithsonian.

No entanto, as pesquisas nos arquivos da Cidade do Cabo em 2010 permitiram concentrar a atenção neste acidente e concluir tratar-se do São José.

"A identificação deste navio torna-se ainda mais importante por representar uma das primeiras tentativas para transportar escravos da África oriental [banhada pelo Índico] para o comércio de escravos transatlântico, que desempenhou uma importante função no prolongamento por décadas desde trágico comércio", acrescentou Bunch.

Calcula-se que mais de 400.000 nativos da África oriental foram transportados como escravos de Moçambique para o Brasil entre 1800 e 1865.

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