Desafios da economia açoriana

Desafios da economia  açoriana

 

Paulo Gil André   Regional   18 de Nov de 2010, 16:15

Só com uma visão de longo prazo é possível encetar medidas estruturantes que não andem a reboque de interesses duvidosos (...) Uma visão de longo prazo promove um desenvolvimento sustentável assente na responsabilidade social e na ética, na eficiente utilização de recursos (...)

Um pequena economia insular, dispersa por várias ilhas, enfrenta dificuldades acrescidas na movimentação de pessoas e bens, falta de economias de escala, duplicação de investimentos, entre outros. Baixar os braços e aceitar o destino? Não, nunca! É nas dificuldades que se encontram as oportunidades. Não há receitas milagrosas nem a solução está numa só medida. O caminho a seguir será sempre a soma de um conjunto de soluções e alternativas, que em conjunto podem e devem ser prosseguidas.
Muitos diagnósticos foram já feitos sobre os desafios que as economias enfrentam. Não se pretende aqui receitar soluções mas tão-só reforçar o que é por demais evidente. Há caminhos que devem ser percorridos para assegurar um desenvolvimento harmonioso da economia e distribuição da riqueza. A superação dos desafios que a economia Açoriana enfrenta devem ser analisados, tendo em consideração que é essencial:
- ter uma visão de longo prazo;
- perceber de que depende o futuro e a implementação de uma estratégia de sucesso;
- conhecer e dominar as variáveis críticas sobre as quais devemos actuar.

Visão de longo prazo
Só com uma visão de longo prazo é possível encetar medidas estruturantes que não andem a reboque de interesses duvidosos e que apenas servem minorias. Uma visão de longo prazo promove um desenvolvimento sustentável assente na responsabilidade social e na ética, na eficiente utilização de recursos, proporcionando uma estabilidade e previsibilidade, essencial aos investidores e empreendedores (quem investe numa região / país que não tenha regras de jogo claras e duradouras?). Este clima é fundamental para desenvolver e fortalecer o tecido empresarial, devendo ser canalizados incentivos para os sectores e áreas críticas ao desenvolvimento da Região (novas tecnologias, bens transaccionáveis). Há que promover a inovação e a criatividade. Neste período de crise o desemprego é uma excelente fonte de novos empresários e empreendedores. Cabe às instituições apoiar (incentivar) os elementos válidos que aceitem o risco de arrancar com novos negócios. Está na hora de passarmos das palavras aos actos e promovermos de facto as PME, que são sem qualquer dúvida a máquina produtiva do país de bens transaccionáveis e criadores relevantes de postos de trabalho. Em suma, só com uma visão/estratégia de longo prazo poderemos esperar um contributo relevante dos agentes económicos.

De que depende o sucesso de uma estratégia de longo prazo?
Acima de tudo depende das opções estratégicas de desenvolvimento que venham a ser adoptadas. E estas só podem ser as que proporcionem um aumento da produtividade e competitividade das empresas e economia. Deixemos as empresas fazer o seu papel, dando ao Estado o papel de órgão regulador e legislador, responsável por regras claras, estáveis e equitativas.

E de que depende a concretização
destas políticas?
Sem dúvida que depende da qualidade e quantidade dos recursos empregues, bem como da qualidade das instituições. Depende de um compromisso dos governantes para com as pessoas que os elegeram, de uma não subjugação a calendários eleitorais, bem como um maior sentido de cidadania e escrutínio dos eleitores. A implementação na prática diária da regionalização alcançada pela sociedade açoriana é, sem dúvida, um pilar essencial para este sucesso.

Variáveis sobre as quais devemos actuar
Entendemos que os esforços se devem concentrar nas variáveis que possam desbloquear os actuais constrangimentos da economia, potenciar as suas mais-valias e criar um futuro com regras de jogo claras e previsíveis.
Promover a qualidade das instituições – são vários os caminhos a seguir, nomeadamente melhorar a qualidade de serviço e de rapidez de resposta, corrigir excessos de burocracia, complexidade e custos de licenciamento, limites de auto-regulação, aumentar a transparência das decisões e atribuir incentivos de forma eficiente.
Globalização e conhecimento (valorizar as pessoas) – com a globalização, qualquer Açoriano pode hoje divulgar e alugar a sua casa na internet a um norueguês, americano ou sul-africano. Qualquer empresa Açoriana pode divulgar o seu negócio, ideias e produtos ao mundo inteiro, através da internet. O conhecimento é a maior ferramenta das economias modernas. O ensino deve ter uma forte orientação para a investigação aplicada a situações concretas do mundo empresarial e as empresas devem participar “on-job” de programas de formação nas áreas de conhecimento técnico e específico das indústrias e negócios que pretendem desenvolver.
Inovar e sofisticar os negócios – ideias brilhantes podem surgir em qualquer lugar. Devemos ser catalizadores de iniciativas de sucesso já existentes, fazer do empreendedorismo a alavanca de criação de valor que incremente no mercado global produtos e serviços transaccionáveis. Na realidade Açoriana, o papel das PMEs é crucial à dinâmica da economia. Com uma população reduzida, não fazem sentido estratégias assentes em mão-de-obra intensiva; a capacidade de trabalhar em rede e em projectos inovadores numa base de cooperação competitiva são essenciais à dinamização de uma pequena economia. Mudemos de uma estratégia de produção em massa para uma outra assente em nichos de mercado de elevado valor acrescentado, associados a clusters de PMEs e à criação de emprego altamente qualificado. As tecnologias de informação, biotecnologia, saúde, tecnologia de ponta, energia, ambiente, são áreas de aposta óbvia.
Valorizar os recursos naturais e culturais – nesta área os Açores poderão ter uma mais-valia, uma vez mais se tiver uma estratégia de longo prazo. Cada vez mais são restritos os espaços naturais. Veja-se a Madeira: muito desenvolvida mas cheia de betão. Não fora, apesar de tudo, o clima ameno, a gastronomia e a cultura própria da Madeira, o que de diferente oferece a Madeira? Qual a diferença em dar um mergulho num hotel de 5 estrelas em Lisboa, Vilamoura ou Funchal? Pouco ou nada. A diferença só pode estar na natureza. E os Açores têm um património único, ainda muito natural e preservado que combina a história, a cultura e o espaço - mar e terra (termas, lagoas, prados, montes, etc.). Há que preservá-lo e rentabilizá-lo. Como? Só há duas formas: desenvolvendo um Turismo de qualidade e o sector do Ambiente.
Turismo de Natureza para classes sociais elevadas. Só assim se eleva a rentabilidade e é possível não desenvolver um turismo de massas, que contribui fortemente para a degradação do ambiente (utilização intensiva dos espaços e promoção do betão – construção desenfreada de betão). Mas Turismo (em particular o Açoriano) e Ambiente correm em paralelo. Está também na hora de os agentes económicos e a sociedade em geral perderem a vergonha de ganhar dinheiro com o Ambiente. De facto, as empresas ganharam muito dinheiro a estragar o Ambiente. Está na hora de ganhar dinheiro a melhorá-lo e a preservá-lo.


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