Lagoa

“Deixou de ser interessante investir no concelho da Lagoa”

“Deixou de ser interessante investir no concelho da Lagoa”

 

Cristina Pires/ Ana Paula Fonseca   Regional   17 de Set de 2017, 15:23

Carlos Augusto Furtado. Candidato do PSD à Câmara Municipal da Lagoa afirma que o concelho parou nos últimos quatro anos e deixou de ser interessante investir. Defende a criação de melhores condições para captar investimento





Porque aceitou este desafio?
Aceitei este desafio porque acho que é importante que haja participação cívica das pessoas. Já tive participações em outras listas, em outros momentos da nossa sociedade, e senti que agora era chegado o momento. Senti esta necessidade interior e percebi também que havia muito apoio por parte dos lagoenses (...).

Participou em algumas listas candidatas ao Poder Local. Considera que tem muita ou pouca experiência política?
Sou um homem modesto. Aprecio mais a modéstia do que propriamente alguns exibicionismos. Neste caso, não posso ser tão modesto. Hoje não tenho qualquer problema em enfrentar este desafio autárquico, porque estou completamente ciente de que sou capaz de estar de acordo com aquilo que são as necessidades e as exigências que um cargo destes acarretam.

Se for eleito uma das suas primeiras iniciativas será no sentido de elaborar o novo Regulamento de Taxas e Tarifas para os Serviços de Água, Saneamento e Resíduos. Esta é uma prioridade porquê?
Esta é uma prioridade para se fazer justiça. Eu não me conformo que no concelho da Lagoa que este tipo de serviços seja o mais caro da ilha de São Miguel. Isto são serviços básicos que são prestados à população. A própria entidade reguladora ERSAR admite, como possível, que este serviço seja parcialmente subsidiado pela dotação camarária. Se assim é, desde logo, há que perceber a estrutura de custos afetos a tipo de serviços e se necessário for, por uma questão de justiça social para os lagoenses, deve ser resolvido este regulamento no sentido de criar alguma equidade relativamente aos habitantes de outros concelhos.

Na sua opinião, porque é que a água é mais cara na Lagoa?
Não vejo justificação para isso. A Lagoa é um concelho geograficamente pequeno. Os padrões de qualidade exigidos a estes serviços não são justificação para que na Lagoa o serviço seja mais caro. No meu entender, é um gesto de pouca vontade por quem tem gerido o concelho e que, de alguma forma mais ou menos discreta, tem tirado algum dinheiro aos bolsos dos lagoenses.

Que outros problemas existem atualmente no concelho?
(...) Há casos de sobrelotação no concelho e de novas famílias que não têm condições financeiras para terem um lar seu, nem que seja por um regime de arrendamento. É nossa intenção desenvolver esforços, para que se possa resolver de forma concreta o problema destas famílias. A habitação social é uma prioridade no meu mandato. Lido com pessoas todos os dias e, de uma forma informal, tenho-me apercebido das debilidades que existem a nível da habitação.
(...) É a falta de emprego de forma consistente. Vão-se arranjando algumas soluções de empregabilidade temporária, mas esta dura o que dura e não permite às famílias terem objetivos de futuro. Quando uma família está exposta a processos de emprego temporários não consegue projetar o futuro porque as limitações são já no dia a seguir.


A criação de emprego não é uma competência direta das autarquias. O que pretende fazer para minimizar esta realidade?
(...)Vejo com alguma tristeza, por exemplo, que parques industriais e comerciais existentes no concelho de Ponta Delgada têm dinâmicas muito interessantes e incomparavelmente melhor do que aquilo que acontece nos dois parques industriais da Lagoa. Deixou de ser interessante investir na Lagoa. É preciso perceber porque é que isso acontece (...). Estamos no centro de quatro dos sete concelhos mais importantes dos Açores e isso, por si só, quer ao nível de logística e de todas as outras atividades seria muito favorável aos investidores investirem na Lagoa. Se forem criadas condições para que se instalem outras empresas no concelho, serão estas empresas a criar postos de trabalho (...).

É uma critica à criação do Tecnoparque e à aposta do atual executivo camarário de apostar na Ciência e Tecnologia?
Não sou critico relativamente ao Tecnoparque, nem ao Parque de Ciência e Tecnologia. Acho é que não se podem misturar as coisas. A criação do Parque de Ciência e Tecnologia deveu-se a inúmeros fatores, desde logo, a algum bom relacionamento que existia dos então presidentes de câmara da Lagoa com o Governo Regional.
Relativamente ao Tecnoparque, em 2009, o Engenheiro João Ponte prometeu que ia levar por diante a construção do Tecnoparque e fê-lo. Só que, as coisas têm de passar um pouco para além das obras. No nosso país, existiu durante muitos anos o culto da obra. Faz-se a obra, corta-se a fita e inaugura-se... o Tecnoparque não foi exceção a isso. Tirando a parte da Ciência e Tecnologia, há promessas de investimentos de grande dimensão, mas ficamos por enquanto pelas promessas. Não nos podemos esquecer que o Tecnoparque já tem seis anos. E seis anos dá tempo de nascer o menino e levá-lo à escola. O menino ainda nem anda pelo seu pé.

O que é que a câmara pode fazer para captar estes investidores?
Existe um pequeno troço de ligação entre o parque industrial do Chã de Rego d’Água e a via de ligação entre a Lagoa e Ribeira Grande que, estranhamente, já está há uns anos à espera de ser pavimentado. Só recentemente chegou-se à conclusão que havia necessidade de o repavimentar. Há razões políticas que me levem a acreditar que há motivos estranhos para pavimentação daquele piso quando devia ter sido uma situação já há muito tempo realizada, até porque aquele troço é parte também da ligação entre os dois parques industriais do concelho.
Como as coisas não se resolvem só com obras e estradas, há que criar dinâmicas e, desde logo, parcerias que poderiam ter um envolvimento mais direto com as empresas no sentido de por exemplo, baixar as taxas de licenciamento para a construção de edifícios nestes parques, uma exceção de forma temporária, com a redução de IMI, no sentido de criar pelo menos a entrada de empresas no concelho. Se estivermos a falar de um período excecional e transitório de cinco anos, já dá uma almofada de conforto às empresas (…).

Um dos projetos que aponta para a Lagoa é via atlântica. Em que consiste esta obra?
Não defendo obras megalómanas. As coisas devem começar precisamente ao contrário. A gestão dos recursos públicos deve ser feita na exata medida e proporção aquilo que é o perfil que cada político que tem responsabilidade de levar por diante os destinos do concelho ou daquilo que está a gerir. O que defendo para a via atlântica são intervenções mínimas porque desde logo, em algumas zonas onde estas intervenções têm de ser feitas e ao abrigo do que está mapeado no Plano de Ordenamento da Orla Costeira de São Miguel, obriga que as intervenções sejam minimalistas.

Seriam feitas onde?
Entre a zona do Cruzeiro e a Baia de Santa Cruz. É muito importante que haja uma ligação de toda aquela orla de costa. A zona do cruzeiro por si só não representa mais-valia mas sim junta com a zona das piscinas, a praia de Santa Cruz. Aqueles três quilómetros de costa devidamente valorizados podem ser uma mais-valia para o concelho, porque o turista que nos visita não vem para ver grandes obras de betão. Temos é que definir, assentar e valorizar aquilo que é o perfil da nossa terra.
(...) Estou consciente que tudo o que for feito no concelho da Lagoa não pode ser pensado em ‘timings’ eleitoralistas. Não me incomoda a ideia de daqui a quatro anos, ter um número considerável de obras não concluídas e de não cortar fitas. O que está em causa é a concretização de obras objetivas, e que se fazem valer do investimento que foi feito.

Até que ponto o concelho de Lagoa tem vindo a beneficiar do turismo em crescimento na ilha de São Miguel?
(...) Não é difícil fazer as pessoas deslocarem-se 12 ou 13 quilómetros até à Lagoa, mas não podem deslocar-se para verem nada. O concelho da Lagoa já foi uma referência muito grande em termos de restauração, e que foi perdendo esta projeção. (...) O emprego e as empresas não se criam por decreto. Criam-se quando há condições para tal. Eu tenho ouvido com algum desgosto, das conversas que tenho tido recentemente com algumas pessoas amigas, que têm investimentos e dizem que ‘não vale a pena investir na Lagoa’.

Quais são os argumentos que apresentam?
Os argumentos que me apresentam é que é mais viável e economicamente mais interessante investir em Ponta Delgada. O que não posso concordar. Hoje os 10 quilómetros que separam Ponta Delgada da Lagoa não são obstáculo para coisa nenhuma. O que falta, se calhar, é criar entusiasmo no concelho. Desde logo, é possível construir mais na Lagoa que tem uma capacidade construtiva muito interessante. Novos residentes é mais economia, mais necessidade de restauração, de empresas de venda a retalho. Ao criar na Lagoa outras dinâmicas de habitação, o concelho terá mais população e fará funcionar parte da economia. (...)

Que balanço faz da governação socialista, em particular nos últimos quatro anos?
(...) A governação socialista dos últimos anos não quer dizer que tenha sido negativa no seu todo. Nos últimos quatro anos, o concelho parou. O engenheiro João Ponte, com alguma sabedoria política, não desenvolveu investimentos para os quatro anos porque, no meu entender, também ele não quis começar projetos para depois haver outros a cortar as fitas. Ele é hábil nestes gestos e o que resultou dai é que Cristina Calisto é hoje uma presidente de câmara que não se fez notar em termos de atividade no concelho.

Está confiante na sua eleição?
Parti para este desafio sem objetivos de perder ou ganhar. A participação cívica foi o que me motivou. Os lagoenses conhecem-me e eu conheço os lagoenses e, a partir dai, a decisão está nas mãos deles. As eleições de 1 de outubro estão a ser encaradas com toda a tranquilidade. Antes de ser político já era lagoense, e sempre tive profissão. Não estou atrás de um cargo de projeção social e política.


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