BES

De uma guerra familiar a uma crise no grupo

De uma guerra familiar a uma crise no grupo

 

Lusa/AO Online   Economia   11 de Jul de 2014, 07:06

A luta pelo poder na família Espírito Santo, no final do ano passado, alertou para problemas no grupo e revelou uma crise, aguardando-se agora soluções para um dos mais importantes grupos económicos portugueses.

Em novembro de 2013, a rivalidade entre Ricardo Salgado e o primo José Maria Ricciardi pela liderança do Grupo Espírito Santo (GES) acabou por ser reveladora dos problemas no grupo, que se tornaram mais visíveis no prospeto de aumento de capital do Banco Espírito Santo (BES), divulgado em maio deste ano.

Desde então, sucederam-se notícias sobre a situação do grupo, com destaque para a Espírito Santo International (ESI), uma das 'holding' de topo do GES, que controla a Espírito Santo Financial Group (ESFG), que por sua vez controla a área financeira (em que se inclui o BES).

Uma auditoria a esta empresa sediada no Luxemburgo revelou que não foram registados 1,2 mil milhões de euros de dívidas nas contas de 2012. Além disso, a 'holding' tem capitais próprios negativos de 2,5 mil milhões de euros, ou seja, está em falência técnica.

Nos últimos dias, foram notícia os atrasos nos pagamentos de aplicações financeiras a clientes do Banco Privée Espírito Santo (banco suíço detido pelo ESFG), que investiram em papel comercial da ESI.

Outro dos problemas passa pelo negócio em Angola, onde o BES detém 55,7% do capital no BES Angola (BESA) e em que o risco de muitos clientes não pagarem os empréstimos levou já o Estado angolano a prestar uma garantia soberana de 18 meses de cerca de 4.000 milhões de euros. Se for usada, pode significar o controlo do banco por parte do Estado angolano.

Por conhecer está o impacto da situação do GES no BES.

O Banco de Portugal pronunciou-se já duas vezes sobre esta matéria para dar a mesma garantia: "a situação de solvabilidade do BES é sólida" e foram tomadas medidas "para evitar riscos de contágio ao banco resultantes do ramo não-financeiro do GES".

No entanto, a questão é complexa, devido às relações intrincadas entre as empresas do grupo.

De acordo com a informação conhecida publicamente, o BES tem uma exposição direta de 980 milhões de euros ao ESFG e à Rioforte ('holding' não financeira do grupo). Além disso, no final de junho, tinha uma exposição indireta de 650 milhões de euros através de papel comercial de empresas do grupo vendidas aos clientes de retalho, a que acrescem 1,9 mil milhões de euros colocados em clientes institucionais.

Para garantir que esta dívida é paga, o Banco de Portugal obrigou o ESFG a aprovisionar mais 700 milhões de euros nas contas de 2013. No entanto, segundo um analista contactado pela Lusa, que preferiu anonimato, se o ESFG "tiver problemas e entrar numa situação de 'default' [incumprimento], há que saber quem responde por isso", podendo ser o BES chamado a garantir parte desse valor.

Na quarta-feira, a agência de notação financeira Moody's cortou o 'rating' do ESFG para apenas três níveis acima do incumprimento.

Hoje, as ações do BES e da ESFG foram suspensas da negociação na bolsa e os mercados aguardam esclarecimentos, esperando-se que seja apresentado o plano de reestruturação do GES, que poderá incluir uma reestruturação de dívida da ESI.

Os problemas do GES fizeram hoje manchete na imprensa internacional especializada: o Financial Times (FT) escreveu “receios sobre o banco português levam a vendas no mercado” e o Wall Street Journal noticiou que “os mercados globais caem com receios sobre banco português”.

Envolvida está também a Portugal Telecom (PT), devido ao investimento de 897 milhões de euros feito em papel comercial (títulos de dívida de curto prazo) da Rioforte, empresa do GES, uma operação que a brasileira Oi, que está em processo de fusão com a operadora portuguesa, disse desconhecer.

Estas aplicações de tesouraria em papel comercial da Rioforte vencem na terça e na quinta-feira da próxima semana (847 milhões e 50 milhões, respetivamente).

Mais pacificado parece estar o tema da sucessão do líder histórico do BES, Ricardo Salgado, esperando-se que esta história conheça um final na assembleia geral do banco de 31 de julho.

Depois de inicialmente ter sido apontado o nome do atual administrador financeiro do BES, Amílcar Morais Pires, para presidente executivo do banco, o ESFG anunciou os nomes do economista Vítor Bento (atual presidente da gestora do Multibanco, SIBS) para presidente executivo e de João Moreira Rato (atual presidente do IGCP, entidade responsável pela emissão e gestão da dívida pública) para administrador financeiro.

Para presidente do Conselho de Administração foi apontado o deputado social-democrata e ex-juiz do Tribunal Constitucional, Paulo Mota Pinto, o que levou os partidos da oposição a falarem de "partidarização" do BES.

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