Correspondência inédita de Nemésio precisa de autorização familiar para ser publicada

Correspondência inédita de Nemésio precisa de autorização familiar para ser publicada

 

AOnline/LUSA   Regional   2 de Mai de 2015, 11:02

O escritor Vitorino Nemésio escreveu cartas a Maria do Castro Parreira, que deu origem à personagem "Margarida" no romance "Mau Tempo no Canal", que nunca foram publicadas porque precisam de autorização familiar, devido ao seu conteúdo.

A revelação foi feita à agência Lusa pelo professor catedrático Machado Pires, ex-reitor da Universidade dos Açores, assistente de Nemésio e responsável por várias obras sobre o escritor, que vai revelar agora no livro "Memórias e Reflexões" (editora Letras Lavadas), entre outros, alguns episódios da sua relação com o pai do conceito de "açorianidade".

"O essencial da obra de Nemésio que falta publicar são umas cartas a Maria do Castro Parreira, uma matéria delicada porque implica o consentimento das respetivas famílias", declarou Machado Pires, responsável pelo Centro de Estudos Nemesianos da Universidade dos Açores.

O professor universitário explicou que este conjunto de cartas é importante para perceber a génese da obra "Mau Tempo no Canal", considerado um dos maiores romances portugueses.

Machado Pires, que manteve uma forte relação de amizade com Nemésio até à morte do escritor, acentua que a relevância dessas cartas dirigidas a Maria do Castro Parreira por serem uma "contribuição quase única para se ver como um autor constrói a sua obra, aferindo pela realidade quotidiana com a própria personagem que lá tem dentro".

"Este é um tesouro explicativo na construção de uma obra de ficção. Envolve questões muito delicadas de pudor familiar e questões afetivas que têm um mundo próprio. Talvez seja um bocado cedo para isso, mas as famílias é que têm que decidir", declarou Machado Pires.

O professor universitário aposentado revelou que para além destas cartas, há ainda outros textos do escritor, natural da ilha Terceira, que lhe foram lidas pelo próprio Nemésio, inclusivamente contos, dos quais não encontra rasto.

Existem também alguns poemas, além dos que já foram publicados, com "uma certa ousadia erótica e crepuscular", sobre a marquesa Jácome Correia, com quem Nemésio manteve uma relação amorosa, a par de umas caixas fechadas na Biblioteca Nacional, que só podem ser abertas daqui a alguns anos, segundo Machado Pires.

Vitorino Nemésio, autor do programa "Se bem me lembro", que passou na RTP entre 1969 e 1975, foi, segundo Machado Pires, "saneado" da televisão pública porque não alinhava com o marxismo.

"Eu assisti à velhice e à doença deles [Vitorino Nemésio e sua mulher] e à reação que teve à carta que ele recebeu quando foi saneado da televisão. Sei quem fez isso, mas não vou dizer. Acharam que ele não dava garantias de estar com a revolução do ponto de vista marxista", disse Machado Pires.

"Custou-lhe porque era um homem livre, não fazia política nem contra nem a favor, falava de cultura. Foi um pouco doloroso. Ele ganhava algum dinheiro com os programas da RTP. Um professor catedrático ganhava relativamente pouco na altura, ele tinha uma família cheia de problemas de saúde, precisava de dinheiro", acrescentou.

Machado Pires reúne na sua obra "Memórias e Reflexões" episódios da sua infância na ilha Terceira, de estudante em Lisboa e de assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, traçando ainda o perfil de personalidades que determinaram a sua formação, como Vitorino Nemésio.

A história da criação da Universidade dos Açores, bem como uma revisitação do sismo de 1980 na ilha Terceira, naquele que considera um momento mais literário, e uma carta ao primeiro-ministro sobre o 1.º de dezembro integram também o livro.

A obra de Machado Pires contém ainda alguns ensaios sobre o que considera a "nova decadência" e o mar em Fernando Pessoa, abordando ainda a necessidade de uma exigência ética na democracia e a defesa da meritocracia em detrimento da "tirania do voto".

Machado Pires, que foi várias vezes considerado por Nemésio o seu cireneu em dedicatórias que considera muito empáticas e afetivas, defende a exigência de uma atitude patriótica para que se promova a coesão e se encarem os problemas de forma suprapartidária.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
 
Termos e Condições de Uso.