Companhia de teatro dá a conhecer cultura dos Açores através das suas peças

Companhia de teatro dá a conhecer cultura dos Açores através das suas peças

 

Lusa/AO online   Cultura e Social   23 de Mar de 2018, 14:08

A companhia de teatro Cães do Mar, criada há um ano na ilha Terceira, nos Açores, quer dar a conhecer a cultura e a história do arquipélago, através das suas peças.

“É uma tomada de consciência de que há uma necessidade, creio eu, de trabalhar a memória, a história, a cultura açoriana, de uma forma eficaz e profissional, de fazer uma abordagem digna e apresentar isso ao mundo, para consumo interno e para consumo externo. Acho que a cultura açoriana merece essa dignidade e o teatro pode ser convocado, pode fazer esse papel”, adiantou, em declarações à Lusa, Ana Brum, encenadora do grupo.

Este sábado, os Cães do Mar regressam ao Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima, do Museu de Angra do Heroísmo, onde estrearam "Os Amores Encardidos de Padi e Balbina, uma Dúbia História de Amor do Revenge”, em janeiro de 2017.

O grupo segue depois para a ilha de São Miguel, onde atua no Teatro Micaelense, no Dia Mundial do Teatro (27 de março), e já tem agendada uma atuação na Camacha, na ilha da Madeira, a 01 de abril.

Natural da ilha Terceira, Ana Brum mudou-se para Lisboa para estudar design de cena na Escola Superior de Teatro e Cinema, mas passados 20 anos a trabalhar na área decidiu regressar a casa, e adotar um novo papel no teatro.

Desafiou Ricardo Ávila e Hélder Xavier, dois atores amadores da ilha, a juntarem-se ao projeto, e começaram a trabalhar na criação de uma peça em torno da história de um galeão inglês chamado Revenge, que terá travado uma batalha naval ao largo das ilha das Flores com uma armada filipina, no século XVI.

Fascinada pelas histórias de pirataria, que marcam os Açores até ao final do século XIX, Ana Brum descobriu uma pequena obra, numa feira de rua, que narrava a versão dos ingleses sobre o Revenge.

“Encontrei esse pequenino texto, fiquei fascinada e comecei à procura de mais informações. Descobri uma versão espanhola, descobri a poesia do Lord Tennyson dedicado ao afundamento do Revenge, num apontamento heroico. E então decidimos contar essa história”, salientou.

Das várias versões da batalha, o grupo escolheu ficcionar a que alega que o Revenge terá enfrentado sozinho 53 navios da armada espanhola, acabando por se render, ao fim de uma noite e um dia de batalha, e perder-se numa tempestade.

A história é contada pela voz de um homem que julga ser descendente de um dos tripulantes do navio inglês, mas nesta peça os gestos têm mais peso do que as palavras.

“É um teatro muito físico: uma batalha naval feita por duas pessoas sem adereços, só com jogo e mímica”, adiantou o ator Ricardo Ávila.

Ao trio da ilha Terceira juntou-se o encenador e dramaturgo inglês Peter Cann, com quem Ana Brum já tinha trabalhado, que sistematizou o texto que resultou de uma criação coletiva, a partir de um trabalho inicial de improvisação.

A peça já passou pela Póvoa de Varzim e valeu-lhes, em 2017, um prémio no Festival Internacional de Teatro de Setúbal, onde deverão estrear, em setembro, o próximo trabalho, que também se focará num tema que marca a identidade dos Açores.

“O próximo espetáculo é uma incursão no mundo da baleação, a partir - com alguma distância - de Moby Dick, de Melville”, adiantou Ana Brum.

“Os Amores Encardidos de Padi e Balbina” também chegaram a algumas escolas da ilha Terceira e, segundo Ricardo Ávila, formado em educação de infância, a peça consegue despertar a atenção do público mais novo.

“Foi uma receção muito interessante, porque as crianças e os adolescentes são muito francos. Tivemos um 'feedback' singularíssimo que nunca tínhamos tido ainda. Elas riem quando têm vontade, quando não têm não riem. Aderiram massivamente, nalguns momentos com histeria inclusivamente, porque não esperavam o que iriam encontrar”, frisou.



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