Classe média "envergonhada" é grande parte da clientela da loja de roupa doada da Cáritas

Classe média "envergonhada" é grande parte da clientela da loja de roupa doada da Cáritas

 

Lusa / AO online   Economia   11 de Jul de 2010, 13:04

Num ano, a loja de roupas doadas da Cáritas de Lisboa já apoiou mais de 500 famílias. Os principais clientes não são pessoas em situações de carência extrema, mas uma nova pobreza "envergonhada" da classe média.

A loja É Dado foi criada em junho do ano passado precisamente para responder ao contexto de crise, disponibilizando roupas em bom estado a pessoas que se viram inesperadamente em dificuldades, explicou à agência Lusa Ana Amaral, da direção da instituição.

“Pensámos que uma forma de ajudar seria disponibilizar roupas em bom estado, tendo em vista as pessoas que não estando numa situação de pobreza muito acentuada, se viram, por perda de emprego ou outras contingências, com necessidades que de outra maneira não teriam”, refere.

Um dos tipos de clientes mais frequentes são desempregados que precisam de roupa para ir a uma entrevista de emprego: “Surgem-nos sobretudo homens à procura de um fato para uma entrevista”.

Mas à loja também acorrem pessoas em situação de pobreza acentuada e sem-abrigo.

A preocupação da Cáritas é sempre fornecer roupas em bom estado, limpas e "que não envergonhem ninguém".

“Decidimos criar uma loja onde não se sentissem pouco à vontade por terem de recorrer a esta ajuda. Temos algum cuidado na seleção das roupas. Procuramos artigos em bom estado, limpos e que não choquem qualquer pessoa que só por circunstâncias muito especiais recorrem a este serviço”, explica Ana Amaral.

Por isso, a loja segue a regra de qualquer espaço comercial: as roupas estão divididas por secções e tamanhos, os brinquedos e os livros encontram-se numa zona própria e há até uma área que serve de provador.

Por norma, os clientes deveriam estar referenciados por uma entidade que preste apoio social, mas, muitas vezes por vergonha, isso não acontece.

Segundo o regulamento criado pela instituição, quem traz referenciação pode levar até quatro peças de cada tipo de roupa, de dois em dois meses.

Caso não haja referenciação, o número de peças é reduzido para dois e o espaço de tempo para voltar a recorrer à ajuda é alargado.

Desde que abriu, a É Dado apoiou cerca de 500 famílias, num total de mais de 1500 pessoas, revela a responsável da Cáritas.

No Natal, a afluência aumentou e os responsáveis admitem que, com o acentuar da crise e do desemprego, a procura vá subindo ao longo deste ano.

A loja sobrevive de doações, essencialmente de particulares, mas também de lojas que fornecem restos de coleção e empresas de exportação e importação que doam restos de stock.

“Começámos também a ter hotéis que nos dão roupas de cama, atoalhados, cortinados, produtos que têm muita procura”, conta Ana Amaral.

A loja já extravasou a esfera do cliente particular e passou a fornecer também instituições, como infantários ou prisões.

Apesar de considerarem que os objetivos foram atingidos, os responsáveis da Cáritas de Lisboa dizem não ter condições para abrir mais espaços semelhantes, até porque o trabalho é feito essencialmente com recurso a voluntariado: “A nossa intenção foi servir de modelo e levar outros a criarem coisas semelhantes nas várias paróquias, por exemplo”.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
 
Termos e Condições de Uso.