Cimeira das Lajes de 2003 divide Jorge Sampaio e Durão Barroso

Cimeira das Lajes de 2003 divide Jorge Sampaio e Durão Barroso

 

LUSA/AO Online   Nacional   8 de Mai de 2016, 20:29

O antigo Presidente da República Jorge Sampaio afirmou que "não cabe ao Presidente autorizar ou deixar de autorizar atos de política externa", respondendo ao ex-primeiro-ministro Durão Barroso, que disse que Sampaio concordou com a Cimeira das Lajes.

Jorge Sampaio escreveu hoje um artigo de opinião no jornal Público - intitulado “Iraque, evocações presidenciais” – em que começa por referir que “costuma dizer-se que a memória é seletiva e que os relatos históricos são reconstruções narrativas”, para depois sublinhar que “as chamadas fontes em história permitem colmatar lacunas e reconstituir factos passados”. Este artigo de opinião de Jorge Sampaio, que foi Presidente da República (PR) de 1996 a 2006, surge no dia em que a SIC e o Expresso divulgaram uma entrevista ao ex-primeiro-ministro Durão Barroso, em que este adianta que consultou o então Chefe de Estado e que este concordou com a realização da Cimeira das Lajes, que esteve na origem da invasão do Iraque. “Sim. Foi a única pessoa que eu consultei antes de tomar a decisão final. Depois de me ter sido proposto isso pelos outros países”, afirmou Durão Barroso, sublinhando que contou, “na altura, com o apoio do parlamento português e com o apoio do Presidente da República de Portugal, o dr. Jorge Sampaio, que expressamente disse que sim, que concordava”. Sem nunca citar textualmente o nome de Durão Barroso, Jorge Sampaio, no artigo publicado esta noite na edição digital do Público, diz que foi “inspirado pela leitura dos semanários de fim de semana”, o que o levou a “fazer uma breve revisitação dos anos 2002-2003 deste século, determinantes que foram para o caos que hoje se vive no plano internacional”, designadamente no Iraque. Jorge Sampaio afirma que a literatura internacional “dá pouca ou nenhuma importância” à Cimeira das Lajes e ao “processo que levou à sua realização nas Lajes – e não em Washington, Londres, Barbados e Bermudas, como terá sido ventilado”. O antigo chefe de Estado recorda, no entanto, um telefonema que recebeu do então primeiro-ministro Durão Barroso, “pelas sete da manhã do dia 14 de março” de 2003, em que lhe pediu “uma reunião de urgência”. “Para minha estupefação, tratava-se de me informar que havia sido consultado sobre a realização de uma cimeira nos Açores, essa mesma que, nesse mesmo dia, a Casa Branca viria a anunciar para 16 de março, daí a pouco mais de 48 horas”, escreve Jorge Sampaio. O antigo Presidente da República afirma que “não é preciso ser-se perito em relações internacionais para se perceber que eventos deste tipo não se organizam num abrir e fechar de olhos”, e acrescenta que “também não é necessário ser-se constitucionalista, para se perceber que não cabe ao Presidente autorizar ou deixar de autorizar atos de política externa”. Sampaio diz, porém, que “nada teria a opor”, verificando-se os pressupostos de que Durão Barroso lhe tinha dado conta: “Transmiti claramente que, tratando-se, como o meu interlocutor afiançava, de uma derradeira e essencial tentativa para a paz e evitar a guerra no Iraque, nada teria a opor”. A 16 de março de 2003, reuniram-se na ilha Terceira, na base das Lajes, nos Açores, o Presidente norte-americano George W. Bush, o primeiro-ministro britânico Tony Blair, o primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar, tendo sido recebidos pelo então primeiro-ministro português Durão Barroso. Quatro dias depois, na madrugada de 20 de março, tinha início a invasão militar do Iraque.


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