Cidadãos europeus têm dúvidas sobre projeto europeu que cumpre 60 anos

Cidadãos europeus têm dúvidas sobre projeto europeu que cumpre 60 anos

 

Lusa/AO Online   Internacional   24 de Mar de 2017, 06:48

A dias da celebração dos 60 anos da Comunidade Europeia, cidadãos de vários países da União admitem dificuldades em identificar-se com o projeto, dizem que há demasiados países no grupo e culpabilizam os políticos pelas crises recentes.

“Até agora, a UE tem funcionado bem, mas não gosto nada de que os alemães estejam cada vez mais a mandar nisto tudo, com ofertas de solidariedade que não são reais”, afirmou à agência Lusa em Madrid Daniel Ulías, um espanhol de 30 anos que vê o futuro “muito negro”.

Na Porta do Sol, no coração de Madrid, António Sancho, de 37 anos, também acha que o projeto europeu “começou bem”, mas adianta que “vai acabar mal”.

“O problema são os políticos que temos, muito corruptos e que pensam mais neles do que nos cidadãos”, explicou.

Aos 75 anos, Lúcia Montero é nostálgica e não tem dúvidas em assumir que o projeto europeu “era bom".

“Mas agora tenho as minhas dúvidas (...) Vejo o futuro muito negro. Há cada vez mais partidos e grupos e aumentam as dificuldades em governar um país ou a Europa”, opina.

Na outra capital ibérica, Lisboa, Jorge Barros, de 53 anos, alinha na ideia de que Portugal - tal como outros Estados-membros - "não tem tido políticos à altura" do projeto europeu.

"Nós estamos a pagar coisas que não devíamos à conta dos políticos que temos", disse à Lusa o gerente comercial.

Tal como Jorge Barros, também Maria Coelho - uma doméstica de 60 anos - nem pensa em ver Portugal a sair da UE.

"Foi muito bom termos entrado para a União Europeia, no sentido em que abriu muitas portas para toda a gente. (...) Se calhar a saída do Reino Unido é positiva para eles, no sentido em que não terão tantos compromissos para com os outros países. Mas Portugal não deveria fazer o mesmo, a começar porque é um país pequeno e pobre", disse.

Num dos seis países fundadores da Comunidade Económica Europeia (em 1957), o Luxemburgo, a estudante Chelsea Reuter, de 20 anos, sente-se "luxemburguesa e europeia" em partes iguais. E, à semelhança do que dizem cidadãos portugueses, salienta que a pequena dimensão do seu país é justificação adicional para permanecer na UE.

"É claro que há problemas e diferenças, mas a UE é importante, sobretudo para os luxemburgueses: é um país tão pequeno que a vida seria difícil sem os nossos aliados", disse à Lusa a jovem luxemburguesa, criticando a saída do Reino Unido.

"Os ingleses foram sempre difíceis, não sabem o que querem. Para mim é uma idiotice saírem, porque juntos somos mais fortes", afirmou, considerando, no entanto, que a Europa não está em risco.

Pit Schmit, contabilista luxemburguês, explica a razão pela qual não vê o ‘Brexit’ como "o princípio do fim" da UE.

"O ‘Brexit’ não me assusta, é só um que sai", disse à Lusa, defendendo mesmo que "há demasiados países na UE" para que esta possa funcionar bem.

Já Georges Heirendt, de 50 anos, diz que a paz na Europa é uma das maiores conquistas da UE.

"Como dizia um grande ex-primeiro-ministro luxemburguês, Jean-Claude Juncker [atual presidente da Comissão], as pessoas que têm dúvidas sobre a importância da União Europeia, ou que não sabem muito bem para que serve, deviam ir visitar cemitérios militares", recordou.

Da França - um dos seis signatários iniciais do Tratado de Roma - surgem as opiniões mais céticas em relação à União Europeia.

Na Praça da República, em Paris, Katerina Forlini, uma francesa de 41 anos com origens gregas, diz que a Europa se tornou "algo monstruoso".

“Lá diz a expressão que pior que o barulho das botas, é o silêncio das pantufas. Antigamente, identificava-me como europeia, sonhava com uma união dos povos porque tínhamos uma história e um sofrimento em comum, mas a Europa tornou-se em algo monstruoso com que não me identifico agora”, realça.

Formada em direito europeu, Katerina afirma viver “uma real crise identitária”, sublinhando que a resposta à crise dos refugiados foi “um dos maiores fracassos morais e institucionais da Europa”. “Um europeu não pode fechar as portas às pessoas que estão no desespero”, sentencia.

Num banco próximo, Mylan Sovanh, de 21 anos, afirma ter uma “visão utópica do que é ser europeu”, ainda que “na prática não funcione”.

“Ser europeu é reunir várias culturas sob uma mesma bandeira, entreajudar-se, auxiliar os países-membros. Temos valores em comum, mas estamos todos divididos. Os ditos valores europeus não são respeitados pela própria Europa. Basta ver a Hungria, o 'Brexit' ou a campanha às presidenciais francesas”, defendeu o jovem técnico de som.

Hervé Dumoulin, de 45 anos, diz que o fim da identidade europeia se deve ao alargamento “a tantos países”.

“Sinceramente, hoje em dia não sei bem o que significa ser europeu. A Europa a 12 fazia sentido, tinha um significado histórico, político, económico, mas depois abrimos a porta a tantos países que a Europa se tornou uma grande máquina política e financeira e os Estados-membros perderam o direito à palavra e à defesa da sua própria identidade”, afirmou o empresário na construção civil.

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