"Charlie Hebdo" regressa aos quiosques "sem medo" na quarta-feira

"Charlie Hebdo" regressa aos quiosques "sem medo" na quarta-feira

 

AO/Lusa   Internacional   22 de Fev de 2015, 08:59

Quase dois meses após o ataque que dizimou a redação do Charlie Hebdo, em Paris, a publicação regressa aos quiosques esta quarta-feira, "independentemente das ameaças que pairam sobre o jornal", disse à Lusa Corinne Rey, sobrevivente do ataque de 7 de janeiro.

 

Em entrevista à Lusa por telefone, a desenhadora conhecida como "Coco" explicou que os colaboradores do Charlie Hebdo estão "sob proteção" [policial] e lembrou que "as ameaças contra Zineb El Rhazoui, contra Riss e contra o próprio jornal continuam presentes" mas insistiu na necessidade de "não ceder ao medo".

"Não estávamos preparados para este tipo de acontecimento, não é humano. O que nós vivemos deixa-nos um pouco céticos, mas não vai impedir a liberdade de expressão porque o que eles queriam era calar-nos. Digo não ao medo. Claro que isso não trava a angústia porque vivemos um choque traumático. Porém, não temos medo", descreveu.

Questionada sobre se pensou em desistir de desenhar depois do assassínio de alguns dos principais nomes do jornal, como os históricos Cabu, Wolinski, Charb e Tignous, a "cartoonista" de 32 anos respondeu: "Não. Nunca. Desenhar faz-me bem e ajuda-me a não pensar em tudo aquilo. Distrai-me a cabeça."

"O Charlie Hebdo é como uma família. Continuamos por nós, pelo jornal, mas também por eles - os colegas e os amigos que nos deixaram. É o que eles teriam feito e quereriam que fizéssemos, sem dúvida alguma."

Os desenhos para a próxima edição foram escolhidos na sexta-feira passada e "Coco" preparou "uma coluna sobre o processo DSK [Dominique Strauss-Kahn] em Lille", o mediático julgamento do antigo diretor do Fundo Monetário Internacional que enfrenta a acusação de proxenetismo agravado.

Com a redação ficou reduzida depois do ataque de 7 de janeiro, o jornal recorreu "à ajuda de outros desenhadores" como, por exemplo, Pétillon do semanário satírico "Canard Enchaîné".

Visto que se trata de "um jornal onde se desenha sobre as notícias da atualidade", as páginas do próximo Charlie Hebdo também vão contar com desenhos sobre os ataques de 14 de fevereiro em Copenhaga: o primeiro contra um centro cultural onde o cartoonista sueco Lars Vilks - que, em 2007, tinha desenhado o profeta Maomé com corpo de cão - participava num debate sobre liberdade de expressão e o segundo contra uma sinagoga.

"Foi outro choque. É um crime contra a nossa liberdade, contra a cultura, contra a democracia, seja em França, na Dinamarca ou em qualquer outro sítio do mundo. É preciso lutar contra isso e não ceder ao medo", continuou, acrescentando desconhecer qual vai ser o desenho da capa da edição número 1179 do Charlie Hebdo.

Questionada sobre a proximidade temporal e temática entre os ataques de Paris e de Copenhaga e sobre a possibilidade de uma guerra contra a liberdade de expressão, a autora de banda desenhada limitou-se a dizer que "há que lutar contra todos os extremistas, sejam eles a extrema-direita, católicos extremistas, muçulmanos extremistas ou judeus extremistas".

Tal como a "edição dos sobreviventes" que saiu a 14 de janeiro - uma semana após o atentado - a nova edição foi preparada numa sala do diário Libération, mas a redação do jornal satírico deve mudar-se "dentro de algumas semanas".

A "cartoonista" não avançou o novo endereço do jornal, mas não pensa que a morada venha a ser segredo até porque "há as cartas dos leitores, os assinantes". "Vai-se proteger o local, é uma prioridade maior do que nunca", acrescentou simplesmente "Coco".

Corinne Rey preferia não voltar a falar sobre o ataque de 7 de janeiro, mas quis precisar: "Durante o ataque, eu estava a partir para ir buscar a minha filha de dois anos à creche.

Foi à saída do prédio que eles me reconheceram e chamaram "Coco! Coco!" e depois ameaçaram-me para que os levasse à redação".

"Quando os dois terroristas me tomaram como refém, senti uma kalachnikov nas minhas costas, uma outra arma estava apontada à minha cabeça. Tentei desviar a atenção indo ao primeiro andar (e não ao terceiro, como foi deformado [pela imprensa]), mas nada poderia travar fanáticos tão determinados. Eu estava encurralada", acrescentou, mais tarde, a desenhadora.

Na sequência da onda de solidariedade em que milhões exibiram a frase "Je suis Charlie", "Coco" deixou um apelo: "A marcha de 11 de janeiro foi muito bonita e tocou-nos imenso. No entanto, se vocês são realmente Charlie, têm que o provar. Há que compreender o nosso trabalho de humor e de sátira. Nem toda a gente tem este humor. Um desenho é uma imagem forte, uma linguagem universal e talvez seja por isso que assusta os extremistas, o Daesh, os jihadistas".

 


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