Casas abrigo estão a servir como "espécie de asilo" para vítimas idosas


 

Lusa/AO online   Nacional   25 de Set de 2012, 18:29

O psicólogo da Associação de Apoio à Vítima (APAV) alertou que as casas abrigo estão a servir como uma "espécie de asilo" para responder às "novas vítimas" de violência doméstica, mulheres com mais de 65 anos.

“Estamos a fazer das casas de abrigo uma espécie de asilo e não são”, afirmou o supervisor das casas de abrigo para mulheres e crianças da APAV no seminário “Morrer no feminino: Da prevenção à intervenção”, promovido pela Escola de Polícia Judiciária, que decorre hoje em Loures.

À margem do seminário, Daniel Cotrim disse à agência Lusa que os responsáveis pelas casas de abrigo têm vindo a notar, nos últimos dois anos, o surgimento de “novas vítimas de violência doméstica”.

“Estamos a falar de mulheres mais velhas, com mais de 65 anos, que têm todo o direito de sair da situação abusiva [em que se encontravam] mas para as quais a casa abrigo não é só por si uma resposta”, porque são “um espaço transitório e temporário”.

Daniel Cotrim defendeu que deve haver espaços que permitam a passagem destas mulheres (quando já estão numa situação de segurança) para outro espaço que possa responder às suas necessidades.

Às casas abrigo chegam mulheres em situações de emergência. Podem ali ficar entre seis a 18 meses, até poderem recuperar a sua vida, a nível do emprego, habitação e saúde.

“Neste momento, as situações têm uma duração média de um ano e meio”, contou o psicólogo, adiantando que a taxa de sucesso do percurso destas mulheres ronda os 60 a 70 por cento.

Atualmente, a grande maioria encontra habitações e empregos precários, contando depois com o auxílio das organizações, que dão apoio alimentar e em bens.

As casas abrigo são poucas em Portugal (pouco mais de 30) para as situações que ocorrem: Quando há falta de vagas, o que as organizações fazem é contactar outras instituições que têm este apoio.

Os relatos que chegam aos técnicos da APAV por parte das vítimas são muitas vezes chocantes: “Amava aquele homem como se não houvesse mais ninguém, até dei os meus filhos para serem adotados”; “Ainda sei a que sabem os beijos dele”.

Estas afirmações, citadas por Daniel Cotrim no seminário, foram feitas por uma mulher, que foi agredida pelo companheiro de 10 anos com quatro facadas na zona de costelas, à chegada a uma casa abrigo.

O psicólogo explicou que a “dor e o medo” fazem parte da vida destas mulheres.

“As vítimas concebem a relação conjugal de mitos sociais, evitam falar do agressor, consideram normal a submissão ao poder masculino e tem uma visão tradicionalista em relação aos papéis de género”, adiantou.

Recusam ainda “a ideia de fracasso conjugal e têm uma conceção de amor que leva ao sacrifício, em que te têm de fazer tudo para que a outra pessoa esteja feliz”.

Muitas vezes, estas mulheres são agredidas em frente dos filhos e muitas vezes são os filhos que as salvam.


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