Bruxelas queria limitar atividade do banco aos Açores e à Madeira

Bruxelas queria limitar atividade do banco aos Açores e à Madeira

 

Lusa/AO online   Economia   29 de Mar de 2016, 17:27

O ex-presidente executivo do Banif Jorge Tomé revelou no parlamento que, logo após a recapitalização pública do banco, em janeiro de 2013, a Comissão Europeia disse que queria que a atividade do Banif fosse limitada às regiões autónomas.

 

"Na primeira reunião com a DG Comp [Direção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia], após a recapitalização pública, em janeiro de 2013, foi-nos dito que o Banif tinha que fazer uma forte desalavancagem de ativos", afirmou o responsável durante a sua audição na comissão de inquérito ao Banif.

"Na altura o Banif tinha 15 mil milhões de euros de ativo. Mas Bruxelas queria que o Banif passasse a ser um banco das ilhas. Isso significa que teria apenas 3 mil milhões de euros de ativo", assinalou Jorge Tomé.

Logo na sua intervenção inicial, o gestor recuperou o processo de recapitalização pública do Banif, concluído em janeiro de 2013, cujo montante ascendeu a 1,1 mil milhões de euros.

"O mérito da capitalização do Banif não é da administração mas do Banco de Portugal e do Estado Português", disse, acrescentando que "a 'troika' [União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional] estava muito relutante relativamente à capitalização do Banif, dizendo mesmo que não havia dinheiro para recuperar o Banif", afirmou.

Isto, devido ao rácio 'cost-to-income' do Banif, cujos custos operacionais eram superiores às receitas em 78%, segundo Jorge Tomé.

"Este indicador reflete bem o desequilíbrio operacional que o Banif tinha em 2012. O resto da banca tinha em média 55%, pelo que os outros bancos que receberam auxílios estatais tinham muito maior facilidade para ter os planos de reestruturação aprovados por Bruxelas, e muito menor dificuldade para devolver as ajudas estatais", sublinhou.

"O Banif foi capitalizado porque o Estado português em conjunto com o Banco de Portugal decidiram que o banco devia ser capitalizado", vincou o responsável, explicando que a decisão se deveu à necessidade de preservar a estabilidade do sistema financeiro (já tinham 'caído' o BPN e o BPP), por se tratar do banco incumbente nas regiões autónomas e com forte presença junto das comunidades emigrantes, e devido à exposição ao Banco Central Europeu de 2,8 mil milhões de euros e à dívida garantida pelo Estado de 1,2 mil milhões de euros.

Daí, o Estado Português injetou 1.100 milhões de euros no Banif, divididos em 400 milhões de euros de capital contingente ('CoCo') e 700 milhões de euros em capital.

"O Estado submeteu a 09 de novembro de 2012 um plano de reestruturação. A 11 de janeiro a CE [Comissão Europeia] aceitou provisoriamente esse plano permitindo a capitalização. Na altura a regra foi perversa, porque primeiro capitalizou-se o banco, depois tratou-se de ver como seria o plano de reestruturação a ser aprovado por Bruxelas", considerou.

Uma das premissas deste plano passava pela necessidade de os principais acionistas privados do Banif terem que entrar com 100 milhões de euros (a Rentipar com 75 milhões de euros e a Autoindustrial os restantes 25 milhões de euros).

"Depois da capitalização pública o Estado ficou com 99,4% do capital do Banif. Isso mostra a diluição da posição dos acionistas", realçou.

"Já o Conselho de Administração tinha que levantar mais 400 milhões de euros de capital em 2013 e 2014. O objetivo era pagar os 'CoCo' até ao final de 2014 (cerca de 2 anos)", acrescentou Jorge Tomé.

Depois de reestruturado (2013 a 2017), o Banif teria que fazer uma operação de mercado para pagar os restantes 700 milhões de euros.

"A DG Comp percebeu que o tal banco das ilhas não fazia nenhum sentido", rematou.

As audições na comissão parlamentar de inquérito à resolução do Banif começaram hoje: de manhã foi ouvido o antigo administrador Marques dos Santos - que esteve na liderança do banco entre 2010 e 2012 - e de tarde presta esclarecimentos o também antigo presidente executivo Jorge Tomé.


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