Brunheda não sabe se volta a descer a ladeira para ir ao Tua


 

Lusa / AO online   Economia   7 de Ago de 2010, 13:32

Apanhar o comboio sempre foi sinónimo de sacrifício para as gentes da Brunheda, em Trás-os-Montes, onde um caminho de terra batida por uma ladeira é o único acesso à estação ferroviária da Linha do Tua.

À rudeza do caminho junta-se a vegetação reveladora de que há muito tempo ninguém desce lá ao fundo, ao buraco, onde está encaixada a estação da Brunheda “abocanhada” pelas infraestruturas de uma quinta agrícola sobranceira.

“A gente aqui nunca teve nada”, queixa-se Rosa Maria e é talvez por isso que para esta e outros habitantes do Vale do Tua, o comboio “sempre foi tudo”, apesar do tortuoso caminho tantas vezes percorrido a pé para o apanharem.

A 22 de agosto faz dois anos que não passa o metro de Mirandela que fazia o transporte ao serviço da CP. Parou com o último de quatro acidentes com outras tantas mortes que ditaram a agonia em que se encontra a linha.

A circulação foi suspensa entre o Cachão e o Tua, primeiro por motivos de segurança, depois a aguardar por uma decisão sobre a barragem de Foz Tua que vai engolir 16 quilómetros da última ferrovia do Nordeste Transmontano.

A barragem ou a linha é a decisão política por que todos aguardam numa espera que adensa cada vez mais a incerteza resumida num repetitivo “não sei” cada vez que a população é confrontada com a pergunta sobre o futuro.

Nunca tanto se falou da linha do Tua e da Brunheda porque foi dali para baixo que aconteceram os acidentes, porque é dali para baixo que os carris vão ser engolidos pela barragem, porque é a partir dali que a paisagem ganha o paradoxal assombro que lhe confere esse misto de “belo horrível” e a torna numa das vias estreitas mais belas do mundo.

“Era bonito, eu gostava de fazer aquela viagem, é uma coisa que me deixou saudades”, diz Carmem Teixeira que durante oito anos viajou todos os meses para levar a filha a consultas ao Porto.

“Ia à pé até à estação, demorava meia hora” com a filha ao colo e sem luz

a iluminar-lhes o caminho. Num inverno, ficou “atolada na lama”.

As vivências de Carmem não são de antigamente, mas testemunhos recentes de que também a filha Sara, com 14 anos, se lembra.

Ainda assim, para ambas o que conta são “os bons momentos” que estas viagens de três horas e meia lhes proporcionavam e que até permitiram a Sara praticar inglês com os turistas estrangeiros que “achavam as paisagens de Trá-os-Montes muito bonitas”.

Os acidentes que começaram em fevereiro de 2007 eram “adivinháveis” para Nelson Teixeira, desde que as carruagens do metro começaram a circular há doze anos.

“Aquilo não é um comboio, aquilo é uma bailarina que anda ali, não tem estabilidade nenhuma”, ajuíza, apontando também a “falta de interesse na linha. “Viam-se lá travessas podres”.

“Aquele comboio velho, com bancos de pau” era melhor para Jorge Videiro passageiro das antigas carruagens. Fez um curso de serralheiro no Porto, saia da Brunheda domingo à noite e de manhã estava a trabalhar.

“Hoje não se pode fazer isso”, garante, por desencontro dos horários com a linha do Douro.

“O comboio era um “train” que arrastava tudo que a gente lá metia”, é assim que Lida Grilo recorda outros tempos em que despachavam pela ferrovia tudo que colhiam da terra, desde figos, azeite, pipos de vinho.

Animais, mercadorias, todos tinham espaço no comboio, assim como os volumosos embrulhos que Fernanda Almeida levava à filha.

A pé de lanterna na mão ou aos “trambolhões” até à estação, “uma vez parecia um pinguim, levava 14 embrulhos, no comboio, porque se fosse noutro transporte não dava”.

Lídia questiona-se “porque é que da Brunheda para cima anda o mesmo metro e ainda não “desencarrilhou”, só “desencarrilha” para baixo”.

“Porque eles querem fazer a barragem”, atalha Rosa Maria.

O metro de Mirandela continua a circular apenas até ao Cachão, mas “não é possível suportar por mais tempo esta indefinição”, avisa o presidente da empresa e da autarquia José Silvano.

“Nós temos esticado a corda para as populações não dizerem que somos a abandoná-las porque se paramos o metro o Governo tem um pretexto para dizer não funciona nada, acabou”, disse à Lusa.


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