Brasil retira perdas económicas e ganhos políticos da crise venezuelana

Brasil retira perdas económicas e ganhos políticos da crise venezuelana

 

Lusa / AO online   Economia   11 de Jun de 2016, 10:58

O Brasil está a ser afetado economicamente pela crise venezuelana, com uma modesta diminuição nas suas exportações, mas também retira dela dividendos políticos, segundo analistas brasileiros ouvidos pela agência Lusa.

 

A afinidade ideológica entre o regime venezuelano, nas mãos do ex-presidente Hugo Chavez, e o governo brasileiro do ex-chefe de Estado Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, traduziu-se também num aproximar económico nos últimos anos.

Alberto Pfeifer, membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo (USP), deu o exemplo de contratações de empresas brasileiras, em detrimento de norte-americanas e outras, para "grandes obras" no país.

Porém, com a crise na Venezuela, "essa capacidade de contratação caiu a zero", afetando grandes empresas, como a empreiteira Odebrecht e a Camargo Corrêa, acrescentou.

A situação também reduziu, de 2014 para 2015, o valor das exportações para o Venezuela em 35%, enquanto as importações diminuíram 42,09% no mesmo período.

"A falta de pagamento causou a inadimplência desse país junto a fornecedores brasileiros", observou Alberto Pfeifer.

Alcides Costa Vaz, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), ressaltou que "esse impacto económico existe, mas é muito restrito" no total da economia brasileira, que também enfrenta uma recessão.

Como consequência positiva da crise, Alberto Pfeifer notou que "a completa falência do modelo bolivariano populista", o novo socialismo defendido por Hugo Chavez, e a prova da sua "inépcia em governar" fazem com que essa alternativa governativa perca "poder de sedução" noutros países da América Latina.

Como resultado, Brasília terá oportunidade de retomar a sua capacidade de influência e coordenação na América Latina e haverá mais espaço para "posturas mais democráticas no Brasil e na região", defendeu.

Alcides Costa Vaz é da opinião que a crise do modelo bolivariano serve para o governo interino, de Michel Temer, dar força à sua política em "contraponto" com a do PT, mais próxima do regime venezuelano.

O especialista em integração regional considerou que, com o governo de Michel Temer, "o Brasil tende a ser mais vocálico" na sua manifestação pública de oposição e preocupação com o que ocorre no país vizinho, contrariando a atitude mais reservada dos executivos anteriores, liderados por Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Alcides Costa Vaz advertiu ainda que a situação venezuelana "pode gerar pressões nos espaços fronteiriços", embora não seja de prever uma grande chegada de pessoas, dado que a recessão brasileira também não é convidativa.

Alberto Pfeifer, da USP, salientou que o Brasil tem vindo a receber mais imigrantes venezuelanos, embora se trate de "uma imigração muito qualificada".

O analista destacou como outro aspeto positivo que "alguns setores do regime venezuelano", agora mais enfraquecido, não darão tanto apoio a ilegalidades na fronteira.

"Uma parte de uma exportação de ilícitos com origem venezuelana associada ao apoio à guerrilha, tráfico de armas - dizem os serviços de segurança - acobertamento do tráfico de drogas, tende a diminuir com o enfraquecimento do regime venezuelano", disse.

A Venezuela enfrenta uma grave crise política, social e económica, com falta de abastecimento de bens essenciais, e elevada inflação, que no ano passado chegou aos 180%.


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