Bósnia assinala 20 anos do massacre de Srebrenica em crise

Bósnia assinala 20 anos do massacre de Srebrenica em crise

 

Lusa/AO online   Internacional   9 de Jul de 2015, 12:37

Os acontecimentos no enclave muçulmano bósnio de Srebrenica continuam a suscitar, 20 anos depois, profundas divergências nesta região da Europa, comprometendo as relações entre a Bósnia e a Sérvia e funcionando como fator de instabilidade.

 

Uma palavra decisiva continua a afastar as duas partes: 'genocídio', considerado o crime mais grave no direito internacional.

Alguns responsáveis sérvios já se recolheram no memorial onde estão enterradas as cerca de 8.000 vítimas do massacre por forças sérvias na Bósnia, denunciaram um "crime odioso", e o parlamento adotou uma declaração.

No entanto, a Sérvia e os sérvios continuam a recusar com obstinação que em 11 de julho de 1995, e nos dias seguintes, tenha ocorrido um genocídio nessa então "zona de segurança" da ONU, conquistada pelas forças sérvias bósnias do general Ratko Mladic, atualmente detido no tribunal "ad hoc' da ONU em Haia.

Na terça-feira, o primeiro-ministro sérvio, Aleksandar Vucic, anunciou que se deslocaria em 11 de julho a Srebrenica para assistir à cerimónia que vai assinalar os 20 anos do massacre.

"É tempo de mostrar que estamos dispostos à reconciliação, que estamos dispostos a inclinar-nos perante as vítimas dos outros", disse, antes de acrescentar que a Sérvia "é capaz de reconhecer que indivíduos cometeram crimes", prometendo que não escaparão à justiça.

No entanto, na quarta-feira, o chefe de Estado sérvio Tomislav Nikolic definiu com um "grande dia para o país" a decisão da Rússia de vetar no Conselho de Segurança da ONU um projeto de resolução apresentado pelo Reino Unido que propunha o reconhecimento formal pelo Conselho de Segurança como "ato de genocídio" o massacre que é considerado como a maior atrocidade na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Na perspetiva de Londres, o reconhecimento dos acontecimentos de Srebrenica como um genocídio constitui "condição prévia à reconciliação" na Bósnia.

Vucic, um ex-nacionalista radical que se converteu em pró-europeu, recusa como a maioria dos sérvios que tenha sido perpetrado um genocídio em Srebrenica, ao contrário da grande maioria das capitais ocidentais, mantendo-se estes acontecimentos como mais uma arma de argumentação política.

Em julho de 1995 cerca de 8.000 homens e rapazes muçulmanos em idade de combater foram mortos pelas forças sérvias bósnia no enclave do leste da Bósnia-Herzegovina, pouco antes do final da guerra civil interétnica que se prolongava desde 1992.

Segundo a versão de Belgrado, a maioria dos muçulmanos foram mortos em combate após escaparem armados dos locais onde estavam retidos, para tentar alcançar outras regiões da Bósnia controladas pelas tropas do então presidente bósnio Alija Izetbegovic.

Numa recente sondagem na Sérvia, 54% dos inquiridos condenaram o massacre, mas a realidade de um genocídio foi negada por 70% dos entrevistados. Ainda recentemente, o presidente dos sérvios da Bósnia, Milorad Dodik, afirmou que "o genocídio de Srebrenica era uma mentira".

Para o jurista Tibor Varadim, que defendeu a Sérvia perante o Tribunal internacional de Justiça (CIJ), então acusada pelas autoridades bósnias de ser diretamente responsável do genocídio em Srebrenica, o caso está encerrado.

"Em 2006 a justiça internacional decidiu que a Sérvia não cometeu genocídio em Srebrenica e nada pode mudar esse facto", disse recentemente.

Mas diversos países vizinhos, todos ex-repúblicas jugoslavas retomam com regularidades estas acusações, da Croácia ao Kosovo, tornando o processo de reconciliação na região muito difícil.

Assim, e mesmo antes da confirmação da comparência de Vucic na cerimónia de sábado, a presidente da associação das Mães de Srebrenica, Munira Subasic, considerou que a sua presença "significaria que reconhecia de facto o genocídio".

Mas 20 anos depois de Srebrenica, que antecedeu em poucos meses o acordo de paz de Dayton que pôs termo ao conflito interétnico que provocou 100.000 mortos, a Bósnia permanece dividida em duas entidades distintas, envolta nas divisões internas, incluindo entre croatas e muçulmanos, e na cauda dos países candidatos à União Europeia (UE).

Recentemente, a ex-república jugoslava foi palco de grandes protestos sociais, onde a componente interétnica de diluiu. O desemprego atinge mais de 40% da população ativa, com o país a necessitar de mais de 500 milhões de euros em 2015 para combater os seus défices. E os líderes das três comunidades reconhecidas, muçulmanos, sérvios ortodoxos e croatas católicos, raramente chegam a acordo sobre qualquer assunto com um mínimo de interesse comum.

Neste aspeto, as celebrações de Srebrenica vão servir para homenagear muitas vítimas inocentes de uma guerra que a Europa não soube travar. Mas os sinais de reconciliação, e a viabilidade da Bósnia com um novo país desta região dos Balcãs, vão permanecer adiados.


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