Autoridades chinesas preferem esquecer Tiananmen

Autoridades chinesas preferem esquecer Tiananmen

 

Lusa/AO online   Internacional   2 de Jun de 2015, 11:09

A China assinala quinta-feira uma das efemérides mais sensíveis da sua história recente, mas como sempre, as autoridades preferem esquecer a data (4 de junho de 1989), canalizando antes as atenções para o "enorme progresso económico" do país.

 

"O governo e o povo chineses já chegaram a uma conclusão acerca dos incidentes políticos da década de 1980" na praça Tiananmen, disse hoje a porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Hua Chunying. "O progresso económico provou que a via de desenvolvimento seguida pela China está certa e tem o apoio de 1.300 milhões", acrescentou.

Na semana passada, respondendo a uma carta difundida por jovens chineses que estudam fora do país, um jornal do Partido Comunista Chinês (PCC) afirmou que "a sociedade chinesa concordou não debater o incidente de 1989".

O "incidente" diz respeito ao movimento pro-democracia da Praça Tiananmen - ou "rebelião contra-revolucionária, segundo a terminologia oficial - iniciado por estudantes das universidades de Pequim e esmagado pelo exército no dia 04 de junho de 1989.

Centenas de pessoas morreram e milhares de outras foram presas ou exilaram-se.

"Esta parte da história tem sido tão cuidadosamente manipulada e escondida que muitos de nós sabem muito pouco sobre ela", assinala-se na carta.

Os cerca de 28 milhões de jovens que frequentam hoje as universidades chinesas - catorze vezes mais do que em 1989 - ainda não tinham nascido quando os seus antigos colegas ocuparam a mítica Praça Tiananmen, reclamando mais liberdade e protestando contra a corrupção do regime, há 26 anos.

Politicamente, o PCC não abdicou do "papel dirigente", mas no plano económico, as reformas acentuaram-se e os próprios empresários, vistos outrora como "inimigos de classe", já podem filiar-se no Partido.

Entretanto, a China tornou-se a segunda maior economia mundial e no final da próxima década poderá já ser a primeira.

Em 2014, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês (7,4 por cento) foi o mais baixo dos últimos 24 anos, mas, mesmo assim, representou mais do dobro da média global.

Mais de cem milhões de chineses fazem férias fora da China continental e centenas de milhares de famílias enviam os filhos para universidades estrangeiras.

A China já é também o maior mercado automóvel do mundo e um dos maiores investidores do planeta.

Internamente, o PCC lançou uma campanha sem precedentes contra a corrupção, procurando recuperar a credibilidade e legitimar a sua permanência no poder.

Dezenas de quadros com a categoria de vice-ministro ou superior, entre os quais o ex-chefe da Segurança Zhou Yongkang, foram presos desde que Xi Jinping assumiu a chefia do PCC, em novembro de 2012.

A "guerra a poluição", declarada o ano passado, é outra frente suscetível de aumentar a popularidade do PCC.

Ao mesmo tempo, o governo reforçou o controlo sobre a internet e a imprensa, parecendo empenhado em "combater os valores ocidentais" e impor mais rígidos limites ideológicos à criação artística e ao ativismo social independente.

Segundo o relatório anual da organização Human Rights Watch, difundido em janeiro, sob a direção de Xi Jinping, as autoridades desencadearam mesmo "a mais dura campanha de investigações, detenções e condenações políticas da última década, assinalando uma acentuada viragem no sentido da intolerância de criticas".

Daniel A. Bell, professor da Universidade Qinghua, em Pequim, considera que "a democracia, na China, não é inevitável", mas constata que "há uma forte procura por valores ocidentais como a liberdade de expressão, transparência do governo e primado da lei, e que esta procura continuará a aumentar è medida que a China se moderniza".

"Um dia, o governo terá de escolher entre uma sociedade mais aberta e uma repressão estilo Praça Tiananmen para preservar a estabilidade", escreveu Daniel A. Bell na ediçao de maio da revista "The Atlantic"

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