Arqueólogos vão para o Iraque com mais receio de falta de apoios que dos 'jihadistas'

Arqueólogos vão para o Iraque com mais receio de falta de apoios que dos 'jihadistas'

 

AO/Lusa   Nacional   10 de Ago de 2014, 11:19

A equipa de arqueólogos da Universidade de Coimbra (UC), que parte a 17 de agosto para o Curdistão iraquiano, teme que a falta de apoios da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) afete mais o projeto que os ataques do Estado Islâmico no Iraque.

 

O fim do financiamento da FCT ao Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Património (CEAAP), onde a equipa se encontra inserida, "põe o projeto em causa", sendo "uma incógnita" a continuação do projeto de investigação (previsto terminar em 2017), que este ano realiza a expedição com financiamento americano, a partir de uma parceria com a Universidade de Pensilvânia, disse à agência Lusa André Tomé, co-diretor do projeto.

Os ataques de 'jihadistas' do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) no Iraque também preocupam os investigadores. O risco "é maior" do que em 2013, aquando da primeira campanha no local, Kani Shaie, que fica entre as cidades curdas de Kirkuk e Sulaimania, referiu André Tomé.

"O EIIL preocupa-nos, mas não há confrontos na cidade de Kirkuk e as autoridades locais garantem que é seguro ir para o terreno", sublinhou Ricardo Cabral, outro dos co-diretores, referindo que estabeleceram três cenários em que a campanha é suspensa: "se o EIIL tomar Kirkuk, se surgirem atentados com frequência no Curdistão, ou se existir alguma demonstração de força do governo iraquiano" em relação às pretensões curdas de um estado independente.

Em 2012, a equipa de investigação decidiu escolher o Curdistão por ser uma "zona mais afastada dos centros da Mesopotâmia" e uma região "desconsiderada e à margem do ponto de vista historiográfico".

Naquele local, a equipa, com quatro elementos da UC e dois da Universidade de Pensilvânia, pretende agora "perceber o tipo de ocupação no período de 4000 e 3000 a.C., ver se o espaço remonta a uma ocupação neolítica e perceber qual a ocupação no período clássico [entre 300 a.C. e 500 d.C.]", explicou Ricardo Cabral.

Também inserida na campanha arqueológica, está a "utilização de scanners 3D e fotogrametria", que permite uma "divulgação mais abrangente" do projeto, havendo a possibilidade da criação de um "museu virtual" em torno de Kani Shaie, avançou o investigador.

As primeiras escavações, em 2013, "revelaram características que não se esperariam num sítio tão pequeno", contou André Tomé, apontando para uma "tabuinha numérica", uma "espécie de fatura", possivelmente de 3300 a.C., que está relacionada com "o aparecimento de comércio de larga escala".

"Ninguém estava à espera de encontrar esta peça, porque apenas apareciam em grandes cidades no sul da Mesopotâmia", salientou.

O projeto, que já foi mencionado na revista norte-americana Science, corre o risco de terminar, devido ao fim de financiamento da FCT ao CEAAP, salientou o investigador.

"Cortaram-nos as pernas num momento em que atingimos o patamar de grandes universidades. Muitos governos usam as expedições arqueológicas como forma de criarem intercâmbios económicos, mas em Portugal é complicado dizer que a cultura dá dinheiro", lamentou Ricardo.

Agora, os dois investigadores estão "a pensar seriamente" em sair do país e levar o projeto com eles.

 


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