Angra do Heroísmo assinala os 115 anos da passagem de Fernando Pessoa pela cidade

Angra do Heroísmo assinala os 115 anos da passagem de Fernando Pessoa pela cidade

 

Lusa/AO Online   Regional   9 de Mai de 2017, 08:20

Fernando Pessoa passou por Angra do Heroísmo, nos Açores, de onde era natural a mãe, há 115 anos, numa das poucas viagens que fez e onde terá escrito o primeiro poema em português.

 

“O jovem Fernando Pessoa, introvertido, segundo registos conhecidos, redigiu em Angra [do Heroísmo] um poema que hoje conhecemos com o título ‘Quando ela passa’, que segundo alguns estará relacionado com a morte de uma irmã, no ano anterior, em Durban, vítima de meningite”, salientou o presidente do Instituto Açoriano de Cultura, Carlos Bessa, hoje, numa palestra, em Angra do Heroísmo, que assinalou a passagem do poeta pela ilha Terceira.

Fernando Pessoa tinha 13 anos quando viajou com a mãe, o padrasto e os irmãos de férias para Portugal, tendo passado nove dias em Angra do Heroísmo, onde a mãe nasceu, mas viveu apenas até aos três anos e meio.

Segundo registos do jornal ‘A União’, a família chegou à ilha Terceira a 07 de maio de 1902, um dia depois do previsto, devido ao mau tempo, mas permaneceu apenas nove dias, porque havia na altura uma epidemia de meningite.

Segundo Carlos Bessa, apesar de curta, a passagem por Angra do Heroísmo foi marcante, sobretudo tendo em conta que são conhecidas poucas viagens do poeta para fora de Lisboa.

Para além de Durban, na África do Sul, onde passou a infância e a juventude, Pessoa terá ido uma vez a Portalegre para comprar máquinas de tipografia e supõe-se que tenha passado também por Évora e Tavira, mas sem certezas.

Na Rua da Palha, em Angra do Heroísmo, há uma placa que assinala a casa da tia de Fernando Pessoa, onde o poeta ficou alojado com a família, mas o presidente do Instituto Açoriano de Cultura considera que é necessário reforçar essa memória para colocar a cidade no roteiro de Pessoa.

“Dada a sedentariedade do poeta, dada a sua relevância a nível internacional, dado que há turistas que demandam a Lisboa para conhecer a cidade de Pessoa, parece-me que seria de todo pertinente que Angra o homenageasse com uma escultura, que assinalasse o jovem Pessoa quando começam a germinar dentro dele este mundo maravilhoso dos heterónimos”, salientou Carlos Bessa, em declarações à Lusa, à margem da conferência.

Foi também em Angra do Heroísmo que criou com o primo Mário Nogueira de Freitas um jornal satírico manuscrito chamado “A Palavra”, em que assina, no último e terceiro número, como dr. Pancrácio.

“Remete para essa constante vontade de questionar a identidade, essa constante metamorfose em personagens, esse valor imediato e intenso que ele associa à personagem, à imaginação, essa desvalorização do eu ao plural romântico, que aparece sempre associado a outras figuras, que se misturam com ele, que se sobreimprimem, que o desfocam”, salientou Fernando Cabral Martins, docente da Universidade Nova de Lisboa, especialista em Fernando Pessoa e orador da palestra.

Segundo o professor de literatura, a viagem de Fernando Pessoa a Angra do Heroísmo fica marcada pelos laços que ele criou com a tia Ana Luísa, a quem chamava tia Anica, e com o primo Mário Nogueira de Freitas, com quem manteve uma relação de amizade por toda a vida.

Para Fernando Cabral Martins, as férias em Portugal foram também decisivas para que Pessoa tivesse retomado o contacto com a língua portuguesa, já que fez a escola primária e a primeira parte do ensino secundário em inglês.

“Com estas férias de um ano que ele passou em Portugal, ele cortou essa ligação. Deixou de estar completamente submerso no inglês e então apareceu a sua língua materna. Literariamente isso terá sido decisivo”, frisou.

Esse ano longe de Durban terá também impedido Fernando Pessoa de obter uma bolsa para estudar numa universidade em Inglaterra, o que o poderia ter tornado um poeta de língua inglesa.

O primeiro livro completo, com princípio meio e fim, de Pessoa foi escrito em inglês e enviado a uma editora britânica, em 1917, mas não chegou a ser publicado.

“Se esse livro tivesse sido editado e se tivesse tido alguma espécie de sucesso crítico, isso poderia ter sido o princípio de uma carreira de poeta inglês”, admitiu Fernando Cabral Martins.

 

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