"A vida continua", entre "medo" e estranheza, para os residentes do bairro do Bataclan

"A vida continua", entre "medo" e estranheza, para os residentes do bairro do Bataclan

 

AO/Lusa   Internacional   12 de Nov de 2016, 18:52

"Medo", "estranho", "a vida continua" são expressões usadas pelos residentes do bairro do Bataclan, em Paris, um ano depois dos atentados de 13 de novembro, que fizeram 90 mortos nesta sala de concertos, reaberta hoje com um concerto de Sting.

 

Filomena Gomes trabalha no café do Bataclan, há 18 anos, onde faz limpezas, e já regressou ao local, mas com alguma "impressão", até porque conhecia um segurança que lá morreu.

"Impressão. Parece que tudo mexia. Eu tenho muito medo dos mortos (...) A gente vive aqui, passa em frente e vem sempre isto à memória. (...) De manhã, quando entrei lá, às seis da manhã, tive medo, tive medo", descreveu a portuguesa à agência Lusa.

Para Natália Teixeira Syed, uma das porteiras que há um ano acolheu dezenas de sobreviventes do Bataclan, no pátio do seu prédio, a reabertura da sala de espetáculos é uma coisa boa para "reanimar o bairro", mas não deixa de ter um sentimento "estranho".

"Hoje é um sentimento um bocado estranho, é a mesma sensação que a gente teve no ano passado. Hoje e amanhã [domingo, aniversário dos atentados], vai ser assim um bocado estranho, porque a gente já tinha retomado o gosto à vida e agora parece que a gente está a voltar atrás", disse Natália Syed à Lusa.

Margarida de Santos Sousa, outra das porteiras que abriu as portas do prédio aos sobreviventes do ataque de 13 de novembro, sente um certo "nervosismo" com a reabertura, mas diz que é "uma etapa a passar".

"É triste, porque faz lembrar o que se passou há um ano. Claro que nos faz ainda mais relembrar aquilo que se passou. A gente não esqueceu e não vamos esquecer, mas temos de continuar a viver", explicou.

Entre os curiosos que passaram para ver, há três amigos portugueses, dois de férias que "vieram passear" e um que vive em Paris, desde setembro do ano passado.

"Isto para mim não é nada de novo. No ano passado traumatizou-me mais porque se via pessoas a chorar, via-se flores (...) Claro [que o Bataclan deve reabrir]. Porque é que a vida há-de parar? As pessoas devem continuar a vida normal", considerou Mário Ferreira.

Bluenn Quillerou é médica psiquiatra do hospital Saint-Antoine, que acompanhou "entre 250 a 300 pessoas", na sequência dos atentados, e passou junto ao Bataclan em sinal de solidariedade com as vítimas, porque "a vida continua".

"A reabertura do Bataclan mostra que há vida, que é possível renascer das cinzas. Simbolicamente é importante. Dos meus pacientes, muitos não querem voltar aqui e alguns ainda não se sentem preparados. Houve outros sobreviventes que já vieram, quando se abriu a sala especialmente para eles, mas preparámo-los devidamente antes", contou a psiquiatra.

Esta noite, grande parte do boulevard Voltaire está cortada ao trânsito e, do lado do Bataclan, só passam as pessoas com bilhete para entrar na sala, enquanto do outro lado da estrada se concentram os jornalistas, alguns curiosos e pessoas que vêm deixar ramos de flores e acender velas.

A esta hora ainda há pessoas na fila para entrar num concerto carregado de simbolismo em que o cantor britânico Sting, num comunicado publicado no seu 'site' afirma: "Na reabertura do Bataclan temos duas importantes tarefas: primeiro, recordar e homenagear aqueles que perderam as suas vidas no ataque de há um ano, e, segundo, celebrar a vida e a música que este histórico teatro representa".

A banda portuguesa Resistência também vai atuar a 29 de janeiro, na sala Bataclan, no âmbito das celebrações dos 25 anos da associação de jovens lusodescendentes Cap Magellan.

Entre os músicos já anunciados para o Bataclan destacam-se ainda Pete Doherty, Youssou N'Dour e Marianne Faithfull.

 

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