60 por cento de utentes de centros de saúde dependentes de medicamentos do foro psiquiátrico


 

Lusa/Ao online   Nacional   13 de Dez de 2007, 07:26

Mais de 60 por cento dos utentes dos centros de saúde analisados num estudo do Observatório Nacional de Saúde foram considerados dependentes de pelo menos um medicamento do foro psiquiátrico.
Na análise, realizada em 2004, mas cujos resultados só foram publicados este ano, participaram 110 médicos que trabalham em centros de saúde e que enviaram dados de mais de oito mil consultas.

    Um total de 60,9 por cento dos utentes foi dado como dependente em relação a um ou mais psicofármacos (medicamentos para a ansiedade, para dormir ou para a depressão).

    O coordenador em Portugal da Aliança Europeia Contra a Depressão, Ricardo Gusmão, defendeu que deve distinguir-se entre necessidade e dependência.

    "Um diabético não é dependente de insulina, necessita dela. Uma pessoa com depressão crónica não é dependente de anti-depressivo, necessita dele. Nem a insulina nem o anti-depressivo dão dependência, ou seja, se forem interrompidos não dão um quadro de privação", explicou à Lusa o especialista.

    No entanto, o termo usado no estudo é dependência e os autores ressalvam que não foi dada aos médicos que participarem na análise qualquer instrução para a definir.

    Segundo o estudo, a que a agência Lusa, a dependência destes medicamentos, que vai aumentando com a idade, foi maior nas mulheres do que nos homens, o que é explicando com o facto de os diagnósticos de ansiedade e depressão serem mais frequentes no sexo feminino.

    O diagnóstico de ansiedade revelou-se três vezes mais frequente nas mulheres e o da depressão 4,2 vezes superior ao dos homens.

    Os quadros depressivos são mais vulgares no grupo etário entre os 55 e os 64 anos, enquanto a ansiedade é mais frequentemente diagnosticada nos doentes entre os 65 e os 74 anos.

    Os medicamentos tranquilizantes (benzodiazepinas) foram os psicofármacos mais vezes prescritos aos utentes e que mais responsabilidade terão na quantidade elevada de casos de dependência referidos pelos médicos.

    "A partir de um estudo realizado pela rede Médicos-Sentinela sobre insónia foi possível estimar que, por ano, ocorram na população portuguesa cerca de 9.000 novos episódios de insónia. Este facto, aliado à idade avançada da população, com a consequente situação de reforma e a predominância de sexo feminino em relação ao masculino, terão certamente contribuído para a prescrição de benzodiazepinas em tão elevada percentagem de utentes", referem os responsáveis do Observatório Nacional de Saúde.

    Por outro lado, a análise justifica a escolha duma benzodiazepina com o facto de o diagnóstico mais frequente para a prescrição de psicofármacos ter sido a ansiedade.

    A rede de médicos sentinela é composta por cerca de 150 médicos dos centros de saúde portugueses que contribuem voluntariamente para estudar vários tipos de doenças.

    De acordo com um estudo europeu revelado em 2004, Portugal era o segundo país da Europa que mais consumia benzodiazepinas.

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
 
Termos e Condições de Uso.