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Diga Leitor / Carta ao Director

Os engonhadores (É para isto que pagamos impostos?)

Ramiro Carrola /

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No inferno de papéis, de burocracias e de burocratas em que este país se transformou, o desprotegido cidadão, que paga impostos e cumpre a lei, não tarda em dar-se conta que país de engonhadores é este, em que toda uma absurda e abstrusa teia de burocracias e de burocratas nos tiram do sério e moem o juízo. Em que umas e outros, vá lá saber-se por que estranhos fados, em vez de servirem para regular, de forma justa, clara e célere, a vida dos cidadãos, a maioria das vezes mais parecem apostados apenas em dificultar, complicar e lixar a vida daqueles cidadãos que, por berço e integridade moral, são cumpridores escrupulosos da lei, sacrificados contribuintes líquidos do Orçamento que alimenta as teias burocráticas e toda uma chusma de mangas-de-alpaca que, do alto da sua crua indiferença pelos problemas alheios e, ainda por cima, com a sua insuportável proa de alma burocrata, nos empinam o empertigado nariz de sabichões, ou então, num registo menos formal, nos veem com o paleio do “sabe… compreende… bem que eu… “, etc. coisa e tal, a piedosa desculpa na ponta da língua; ou então, para que o assunto morra logo ali, de chofre nos exibem uma relação de duas ou três páginas com os patéticos documentos e comprovativos (os mais bizarros e idiotas) que o indígena tem de apresentar num prazo apertado de 10, o mais tardar 15 dias. Uns engonhadores, é o que estes burocratas são! “O que é isto, meu Deus!”, perguntará o atarantado indígena. “Mas só para arranjar este papel, por exemplo, irei precisar de um mês, ou mais!” A esta justificação, contraporá o engonhador(a): “Pois…mas… compreende, sem a totalidade da papelada, devidamente autenticada, do modelo X a Y, com as assinaturas reconhecidas, bem vê… não podemos dar o primeiro de muitos passos para a resolução do seu caso. Isto dito com frieza, insensibilidade, o quase desprezo do autómato manga-de-alpaca pelo problema, o drama do indígena. (Tenho a este propósito, uma deprimente história com a Câmara de Angra que, sob o manto desculpatório dessa coisa chatíssima da “Zona Classificada”, para uma coisita insignificante, me foi exigido a desoras e num curtíssimo espaço de tempo, uma quantidade de documentos destituída de qualquer sensibilidade ou senso comum, uma mão cheia de documentos absolutamente aberrantes, despropositados, ridículos; um dia falarei acerca disto) Se é pelo telefone que o cidadão-contribuinte pretende resolver o seu problema, então deverá, antes de mais, revestir-se da paciência do velho Job, e preparar-se para o pior. Marca o número do Serviço, espera que atendam, se estiver impedido volta a repetir a ligação até ser atendido. Identifica-se, diz que quer falar com o dr. ou a dr.ª de Tal. “Aguarde um momento”, dizem-lhe do outro lado da linha, metem-lhe uma musiquita no ouvido, e deixam-no o secar. Ouvirá, depois, uma outra voz, com alma de burocrata: “Fala Fulano(a), faça o favor de dizer”, e você repete aquilo que pretende. Terá sorte se não ouvir do outro lado: “Isso não é aqui, um momento que vou ligar”. Mais espera, mais musiquita, mais aquela falada paciência de Job a começar a esgotar-se. Depois, ainda uma outra voz de papagaio formatada para repetir o que lhe mandam papaguear: “Fala Fulana, que deseja?” E você, com os nervos em franja, a tampa da panela de pressão por um fio, lá volta a expor-se, a desfiar outra vez, ainda, o responsório do seu problema. Então, quando a ‘papagaia’, do outro lado, sem pingo de compreensão, ou de sensibilidade, lhe papagueia que a dr.ª Fulana de Tal está em reunião (estão sempre, sempre, em reunião…), aí, leitor, você já não aguenta mais: de repente, salta-lhe a tampa, e depois… bem, depois seja o que Deus quiser... Nunca lhe aconteceu, leitor? A mim, infelizmente, já. É para isto que pagamos impostos?