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Mais vale cair em graça

Rui Faria /

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Do que ser engraçado. Avançou, muito seguramente, o meu caro leitor. E lá voltei eu aos provérbios, pelos motivos que enumerei noutro texto. O “Mais vale cair em graça do que ser engraçado” é, claro está, um dos meus preferidos, por variadíssimas razões. Quanto ao seu significado, convém determo-nos na estrutura comparativa que entre as duas orações se estabelece, cujos núcleos ao serviço da comparação são o “cair em graça” e o “ser engraçado”.

Do ponto de vista linguístico, estes dois termos de comparação podem ser classificados como “lexias verbais complexas”, isto é, são conjuntos feitos, toda a gente usa a expressão verbal “cair em graça” ou “cair nas graças”; se separamos os vocábulos que a compõem, teremos significados diferentes: “cair” é, pois, desequilibrar-se, precipitar-se, “graça” é um nome polissémico, uma vez que tem mais do que um significado, de acordo com o contexto em que é utilizado. E o mesmo se estende à expressão “ser engraçado”.

Analisado, ainda que muito brevemente, linguisticamente, este provérbio encerra – como qualquer outro – um ensinamento. O que é “cair em graça”? É agradar naturalmente. E reforço o uso do advérbio “naturalmente”, porque há muitas formas de se agradar a alguém. O cair em graça é como o amor à primeira vista, não falha. Cair em graça é agradar a alguém, a partir do momento em que um contacto é estabelecido entre duas pessoas. Isso tudo depende da exigência individual, obviamente… O “ser engraçado” é, neste contexto, o querer agradar a toda a força, podendo chegar a ser ridículo ou palhaço.

Olhando à nossa volta, quantas pessoas nos caíram em graça (naturalmente) e quantas se nos são engraçadas (à força)? Muitas, seguramente. Pelo menos é essa a certeza que tenho em relação aos contactos que estabeleço. Fala-se amiúde na “no haver química” e, para ser muito sincero, já não tenho idade para andar carregado de tubos de ensaio. Uma vez que, num primeiro contacto, alguém não me caiu em graça, muito dificilmente cairá. Quanto a ser engraçado, isso já é outra coisa. É engraçado analisar as tentativas de “quedas em graça”, frequentemente lançadas de modo subtil; as aproximações “quase forçadas”, regra geral através de terceiros; os elogios dissimulados que se vão sabendo, por meio de “conhecidos” comuns…enfim, não caiu em graça, não caiu e ponto final.

Numa linguagem bem mais moderna, saída da boca dos nossos adolescentes e jovens, o provérbio sobre o qual discorro encontra variantes em expressões como: “não vou com a cara e pronto”; “que fuças…” e por aí fora. Por isso, convém esquecer o segundo termo da comparação que o provérbio estabelece, porque, no fundo, só fica mal. Relativamente ao “cair em graça”, apenas servirá o primeiro contacto. Quer se tente, através dos mais variadíssimos procedimentos de adulação, o ser-se engraçado é um estado individual e social pequenino e ignóbil. Assim sendo, não temos de fazer por “cair em graça à força”, porque este é um estado espontâneo e natural, se e quando tiver de ser, será.

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