Artigos de Opinião

Autor

Crónica em construção

Rolando Lalanda Gonçalves /

1147 visualizações   

1. Falha

Procurar uma via de solução dos múltiplos problemas que afligem o cidadão no dia-a-dia, num tempo de incerteza e de “crise”, requer um estado de espírito voltado para o essencial, ou seja, para agir sobre as causas e não procurar apenas “retificar” as consequências inevitáveis da ação ou da ausência de intervenção. Não vale a pena disfarces ou desculpas. Não será correto ficar a esperar que as “coisas” se resolvam. É urgente agir.

Vem isto a propósito da situação da RTP-Açores e da ausência de uma estratégia política regional face à rápida mudança tecnológica, à emergência de uma definição centralizada de serviço público ou até mesmo à crise de financiamento público. Esta exigência só pode ser regional e as autoridades públicas regionais não se podem refugiar em “não-lugares” para desculparem a sua inação.

Com efeito estamos a ver concretizar-se em 2012 o já anunciado por Arons de Carvalho em 1996 a famosa “janela” contra a qual então protestei no quadro da minha atividade como deputado. Aliás, neste domínio cumpre-se um estranho “fatal destino”, porque há tempo para tudo, e este não é um tempo “retórico” ou de defesa de posições irredutíveis, mas um tempo de construção de soluções, de reestruturação de projetos e de adequação às novas circunstâncias. E é isto que está a faltar.

2. Falha

Na vida a “falha” está sempre presente mas a “falta”, pela ausência que manifesta assume um significado diferente. Aliás, não é preciso consultar a enciclopédia para se encontrar a forte dimensão dos pecados por omissão nas narrativas políticas, económicas, culturais ou religiosas. Se analisarmos o que efetivamente nos condiciona hoje, verificamos que foi, na sua grande parte, a consequência da ignorância das causas das situações-problema que levou o país à rutura financeira e o Governo Regional Região a se julgar “diferente” quando durante vários anos ignorou todos os “sinais” de que a situação estava a alterar-se e rapidamente.

Ainda temos nos ouvidos a proclamação regional, em cumplicidade com Sócrates, de que “…a crise na região chegava mais tarde e partia mais cedo”…E agora? Este “tique” de se julgar que se controla o que não se domina pode dar trágicos resultados…

O rápido crescimento do desemprego e a deriva nos dossiês económicos tem vindo a mostrar que estamos de facto num fim de um “ciclo político” porque, muito embora a realidade se construa no dia-a-dia mediático, a tendência de vários indicadores mostra a real insustentabilidade de muitas das opções políticas “passadas”. Aliás, teve razão a senhora FMI, Christine Lagarde, quando para caracterizar a atual situação dos países do sul da Europa se referiu ao facto de “quando a maré baixa rapidamente aqueles que não têm fato de banho ficam nus…”

É neste quadro que urge conhecer com rigor a realidade. É por isso que não nos podemos conformar com evasivas acerca de uma situação que sabemos difícil e que não pode ser ignorada. Com efeito, a sustentabilidade das empresas privadas ou públicas regionais não pode ser resolvida no futuro nos moldes do “passado”. A construção de uma sociedade açoriana mais solidária na sua pluralidade territorial e a geração de condições para o aproveitamento dos seus potenciais encontram-se no cerne da essencialidade das medidas exigíveis no curto prazo.

É por isso que o adiamento, na tomada de decisões públicas, num momento em que se exige uma ação decidida, não pode trazer nada de bom. E esta falha pode ter novas consequências futuras.

Estas breves linhas de uma crónica em construção mostram a necessidade social de abertura e diálogo entre todos os protagonistas políticos, económicos ou culturais para se atingir uma decisão coletiva racional e portadora de esperança.

Diário de Notícias Dinheiro Vivo Jornal de Notícias Notícias Magazine O Jogo TSF Volta ao Mundo Açoriano Oriental DN Madeira Jornal do Fundão