1. Sem podermos escrever uma história do amanhã – aqui sem a evocação da “História do Futuro”, do Padre António Vieira, na qual um quinto império de raiz espiritual nasceria em Portugal, sob a autoridade papal de Roma e o mando terreno dum rei português (talvez D. João IV ou D. Sebastião, o rei regressado) – somos protagonistas do nosso tempo. A sociedade açoriana – pequena e frágil, na sua dimensão geográfica, na estrutura económica e na capacidade de responder com eficácia aos problemas do nosso tempo – vive um momento de inquietude política e económica. O longo período de governação socialista - tendo alguns méritos, que seria impossível não reconhecer, depois de dezasseis anos de poder – acentuou as fragilidades da Região. Os governos socialistas dos Açores, inspirados pelas correntes mais à esquerda, procederam à maior nacionalização da economia regional, desde 1976, em nome dum sempre invocado, mas quase nunca demonstrado, interesse público. Dos transportes marítimos ao golfe, da indústria transformadora à hotelaria, diretamente ou através de sociedades comerciais de mão pública, nada escapou à estatização económica. O Governo Regional não apenas substituiu a iniciativa privada, como muitas vezes, concorreu com ela, sem qualquer benefício para os cidadãos ou para economia. Perante um problema económico numa empresa, o Governo Regional preferiu sempre a solução mais imediata: intervir no respetivo capital social. Nos negócios que abriu à iniciativa privada, por meio de concessão, uns são caríssimos – como é caso das SCUT em São Miguel – e outros são ruinosos – como o jogo, na esventrada Calheta de Pero de Teive. Sempre que pode escolher a iniciativa privada, o Governo Regional preferiu a teimosia de Estado.
2. Ao longo dos anos, o Governo Regional trocou a autoridade do Estado, pela conciliação de interesses, disfarçada de diálogo social. Recebeu parceiros sociais, negociou com sindicatos e com forças vivas da sociedade. A todos prometeu concertação de políticas e apoio, sob a forma de subsídios. Com intransigência, cedeu no acessório, para manter o essencial das suas escolhas políticas. Mesmo nas medidas de apoio às empresas ou para a manutenção de empregos, em tempo de crise, persistiu nas escolhas erradas, com a determinação do célebre soldado do passo trocado. No final deste longo ciclo de governação, a sociedade civil está mais dependente do poder público, com cada apoio transformado num favor político, e autoridade do Estado alienada em favor das conveniências.
3. A solidez das finanças públicas regionais, sempre invocada nas ilustradas comparações com Lisboa ou a Madeira, afinal não passa dum mito da teologia socialismo autonómico. A regularidade formal das contas públicas esconde a má despesa pública, os maus investimentos com dinheiros públicos – do orçamento regional e da União Europeia. Aos poucos, as dívidas do setor empresarial regional, os compromissos futuros com as parcerias público-privadas, o caso dramático das dívidas da saúde, são reveladas perante a incapacidade dum explicação convincente e o silêncio incomodado do candidato socialista. Apesar da expressão dos recursos públicos disponíveis ao longo do seu ciclo de governação, o PS foi incapaz de travar o empobrecimento regional, das famílias e das empresas. Gastou-se muito, mas ficámos mais pobres: eis a contradição insanável das políticas socialistas.
4. Já não é possível dar as mesmas respostas aos problemas de sempre, que agora se agravam, pela circunstância económica e pela usura do tempo. Uma alternativa política exige protagonistas diferentes, sem responsabilidades no atual estado de coisas, que demonstrem credibilidade, experiência e capacidade de decisão. As políticas socialistas não são uma fatalidade na sociedade açoriana.
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* Deputado na ALRAA pelo PSD


